Banner
×

Gilmar Mendes dá entrevista à Globo e complica ainda mais a situação do Supremo perante a sociedade

Destaques

Gilmar Mendes dá entrevista à Globo e complica ainda mais a situação do Supremo perante a sociedade

Em entrevista à TV Globo, decano da Corte defendeu o inquérito das fake news até as eleições, relativizou a crise de confiança no Supremo e reagiu com irritação a cobranças sobre transparência, Banco Master e autocrítica

por Redação
23 de abril de 2026, 11h23

A entrevista dada pelo ministro Gilmar Mendes ao Jornal da Globo nesta quinta-feira expôs, mais uma vez, o tamanho do problema de imagem vivido pelo Supremo Tribunal Federal. Em vez de reduzir a temperatura, a conversa acabou reforçando uma impressão que já cresce fora de Brasília: a de que parte da Corte se mostra cada vez mais disposta a rebater críticas, mas bem menos inclinada a responder de forma direta aos questionamentos que mais incomodam a opinião pública. A própria entrevista girou em torno de temas sensíveis, como o pedido de apuração contra Romeu Zema no inquérito das fake news, o caso Banco Master, a crise de confiança no STF e a resistência a mudanças mais claras de conduta e transparência.

O ponto em que Gilmar mais se expôs foi justamente aquele que mais interessa ao debate público: a defesa da continuidade do inquérito das fake news. Ao justificar a manutenção do procedimento, o ministro afirmou que o inquérito “vai acabar quando terminar” e defendeu que ele seja mantido “pelo menos até as eleições”. Em qualquer democracia madura, uma fala assim já seria suficiente para acender alerta. Não porque o tribunal não tenha direito de se defender de ataques reais, mas porque a frase transmite a ideia de um instrumento sem prazo claro, sem marco objetivo de encerramento e cada vez mais associado à conveniência institucional da própria Corte. Em vez de acalmar o ambiente, a declaração oferece munição pronta para os críticos do Supremo.

Também chamou atenção a maneira como o ministro reagiu ao crescimento da cobrança popular sobre decisões, impedimentos e condutas no STF. Ao dizer que o país agora tem “180 ou 200 milhões de juristas”, Gilmar tentou ironizar a enxurrada de opiniões sobre o tribunal. O efeito, porém, foi outro. A frase soou menos como ponderação e mais como desprezo pelo julgamento do cidadão comum. Numa Corte já pressionada por desgaste de credibilidade, esse tipo de resposta só reforça a percepção de distância entre ministros e sociedade. A fala ganha ainda mais peso num momento em que a pesquisa Genial/Quaest apontou, pela primeira vez na série histórica, maioria de brasileiros sem confiança no STF: 53% disseram não confiar na Corte, contra 41% que afirmaram confiar.

A entrevista ficou ainda mais delicada quando entrou no caso Banco Master e no nome de Daniel Vorcaro. Em vez de enfrentar diretamente o desconforto causado pela revelação de vínculos, encontros e proximidades entre figuras do sistema de Justiça e o empresário, Gilmar procurou deslocar o foco. Disse que a imprensa teria transformado o caso em um “case do Supremo” e sugeriu que o verdadeiro endereço do problema estaria no mercado financeiro, “na Faria Lima”. A estratégia é compreensível do ponto de vista defensivo, mas politicamente fraca. O centro da crise não está no fato de o caso ter nascido fora do STF. O centro da crise está no fato de ministros e pessoas ligadas a ministros terem aparecido no raio de influência de um escândalo que ganhou dimensão nacional e internacional.

O problema para o Supremo é que o episódio deixou de ser apenas assunto de bastidor. A crise em torno do Banco Master alcançou a imprensa internacional, com a The Economist afirmando em fevereiro que o tribunal brasileiro estava envolvido em um “vasto escândalo”, enquanto a Reuters relatou que a ascensão de Vorcaro ao centro do poder passou por conexões políticas e judiciais de alto nível. O Financial Times também noticiou o afastamento de Dias Toffoli da investigação criminal do caso após questionamentos sobre potenciais conflitos de interesse. Quando um tema sai da política doméstica e passa a ser tratado por veículos desse porte como fator de abalo institucional, já não se trata mais de mera disputa narrativa local.

Outro trecho que enfraqueceu a defesa do ministro foi sua reação às perguntas sobre transparência e regras de conduta. Gilmar disse não ver grande problema porque, em sua avaliação, muito do que se cobra “já se faz”, e tratou a discussão sobre código de conduta mais como tema de oportunidade do que de necessidade. Ocorre que o próprio presidente do STF, Edson Fachin, anunciou no início de sua gestão que a criação de um código de ética seria prioridade, justamente diante do desgaste da imagem da Corte. Quando o presidente do tribunal aponta necessidade de avanço institucional e um dos seus membros mais influentes responde com resistência ao formato, o recado que passa é o de um Supremo dividido até para lidar com o básico: transparência, contenção e prestação de contas.

No momento em que a entrevista encostou na pergunta que talvez mais importasse — se caberia alguma autocrítica diante das descobertas recentes sobre condutas e relações no entorno do tribunal — Gilmar preferiu uma saída burocrática. Disse que autocrítica é “crítica interna” e que eventuais ajustes devem ocorrer por avaliação interna, regimento ou novas orientações. É uma resposta reveladora. Na prática, o ministro aceitou a palavra, mas esvaziou seu sentido público. Em vez de sinalizar disposição clara de correção diante da sociedade, reforçou a lógica de que o STF olha para si, avalia a si e decide por si. Para uma instituição em crise de confiança, isso é pouco. Muito pouco.

A defesa que Gilmar fez do tribunal ao comparar a crise do STF com a crise de outras instituições, como imprensa, Forças Armadas e lideranças políticas, tampouco resolveu o problema. É verdade que o desgaste institucional é mais amplo e não atinge só o Judiciário. Mas esse raciocínio funciona mal quando usado para relativizar cobranças específicas. O Supremo não sofre desgaste apenas porque vive num país polarizado. Sofre desgaste porque se meteu no centro de disputas políticas, acumulou poder, ampliou sua influência sobre temas sensíveis e agora enfrenta o efeito colateral disso: escrutínio intenso, suspeitas públicas e cobrança por coerência. Comparar o próprio problema com o dos outros pode até servir como escudo retórico. Como resposta à crise, não basta.

A entrevista também teve um componente simbólico importante. Sempre que a repórter apertava em pontos de maior desgaste — delação, timing de processos, conduta de ministros, relações com Vorcaro, crise de confiança — o ministro recorria a explicações amplas, históricas, estruturais, muitas vezes verdadeiras, mas laterais. Em outras palavras, houve mais moldura do que resposta. Mais contexto do que objetividade. Mais reação à crítica do que enfrentamento do problema. Para quem já desconfia do STF, isso reforça a leitura de uma Corte que prefere administrar crise de imagem com discurso sofisticado, em vez de responder de forma simples ao essencial.

No fim da entrevista, ficou uma sensação difícil de esconder: o Supremo parece continuar acreditando que seu problema central é o ambiente hostil, a imprensa, a bolha digital, a polarização ou a incompreensão do público. Só que a fotografia de abril de 2026 mostra outra coisa. A crise de confiança existe, se tornou mensurável, ganhou eco fora do país e já não pode ser tratada como ruído passageiro. Se até agora a estratégia tem sido responder com blindagem, ironia e discurso institucional, a tendência é que a distância entre a Corte e a sociedade aumente ainda mais nos próximos meses.

Publicar comentário