Soraya Thronicke afunda nas pesquisas para o Senado em Mato Grosso do Sul e lidera rejeição
Senadora aparece nas últimas posições na disputa pelo Senado, lidera a rejeição e vê ruir o capital político construído na onda conservadora de 2018
por Redação
22/03/2026 às 08:32
A nova rodada da disputa pelo Senado em Campo Grande escancarou um dado incômodo para a senadora Soraya Thronicke: seu projeto de reeleição entrou na zona de fracasso político. No levantamento do Instituto Ranking Brasil Inteligência, realizado entre 16 e 20 de março com 1.000 eleitores da capital sul-mato-grossense, Soraya aparece com apenas 2,4% na espontânea, 4% no primeiro cenário estimulado e 4,4% no segundo. Na rejeição, amarga o pior índice entre os nomes testados: 12,6%. O contraste é duro para quem hoje ocupa uma cadeira no Senado e tenta permanecer relevante num estado onde já teve vitrine, mandato e exposição nacional.
Os números ficam ainda mais pesados quando colocados ao lado dos principais concorrentes. Nelsinho Trad lidera a espontânea com 9,4%, Capitão Contar tem 8% e Reinaldo Azambuja marca 7%. No primeiro cenário estimulado, Nelsinho aparece com 22,6%, Contar com 20% e Azambuja com 18,4%. No segundo, Nelsinho soma 20,4%, Azambuja 17% e Contar 15,6%. Soraya, nos dois recortes, fica distante do bloco que de fato disputa as duas vagas. Não se trata de oscilação normal de pré-campanha. Trata-se de descolamento da corrida principal.
A leitura política é simples e cruel. Soraya foi eleita em 2018 pelo então PSL, na mesma maré que impulsionou Jair Bolsonaro, e chegou ao Senado identificada com aquele campo. A própria cobertura da época registra sua eleição pelo PSL em Mato Grosso do Sul. Anos depois, a própria imprensa nacional passou a descrevê-la como alguém que chegou a Brasília sob o rótulo de “a senadora de Bolsonaro”.
O problema para ela é que essa origem deixou de ser ativo e virou passivo depois que decidiu romper publicamente com o ex-presidente e bater de frente com o bolsonarismo. Em 2022, VEJA resumiu a virada ao dizer que Soraya havia passado de “senadora bolsonarista” para opositora de Bolsonaro; a reportagem relembra que ela foi eleita “na esteira da onda bolsonarista” e depois entrou em rota de colisão com o então presidente. Em 2023, Soraya afirmou ao Congresso em Foco que “com Bolsonaro, embarcaram na canoa errada” e disse que o bolsonarismo “não é a direita”. No mesmo período pós-eleitoral, o Senado registrou críticas da senadora ao pronunciamento de Bolsonaro sobre o resultado das urnas. Ou seja: o afastamento não foi sutil nem pontual. Foi público, reiterado e politicamente barulhento.
Na prática, Soraya fez a pior escolha possível para quem depende de identidade eleitoral nítida: rompeu com a base que a projetou sem conseguir erguer outra no lugar. Parte considerável do eleitor conservador passou a tratá-la como traidora, algo que a própria cobertura nacional registrou ainda em 2022. E a aproximação posterior com o campo progressista não produziu, ao menos por enquanto, conversão relevante em voto. Em fevereiro deste ano, VEJA noticiou que a senadora, eleita em 2018 como “a senadora de Bolsonaro”, havia se aproximado do campo progressista e negociava caminho ao lado de forças ligadas ao presidente Lula em Mato Grosso do Sul. Mesmo com essa guinada, a pesquisa em Campo Grande mostra Soraya atrás de nomes da direita e também sem ocupar espaço competitivo diante da presença de Vander Loubet no tabuleiro. Isso autoriza uma conclusão política, não matemática: ela perdeu musculatura entre os conservadores e não conseguiu se tornar referência para a esquerda.
Há outro ponto que chama atenção. Quem detém mandato costuma partir de uma posição mais confortável em pesquisas locais, porque tem visibilidade, estrutura, verba partidária, presença institucional e recall. Soraya, mesmo carregando o título de senadora da República, aparece espremida nas últimas colocações entre os nomes com alguma densidade estadual. Pior: lidera a rejeição. Isso significa que sua dificuldade não é apenas crescer. É convencer parte do eleitorado a aceitá-la novamente. Em corrida majoritária, esse é um problema grave, porque rejeição alta trava alianças, desestimula apoios e reduz margem para recuperação.
O retrato de Campo Grande também sugere que o eleitor de Mato Grosso do Sul cobra coerência com mais dureza do que muitos estrategistas de gabinete imaginam. Em 2018, Soraya surfou o sentimento antipetista, o discurso de direita e a ascensão de Bolsonaro. Depois, adotou tom de confronto contra o mesmo campo, tentou se reposicionar como alternativa e passou a circular em arranjos que já não combinavam com a imagem que a elegeu. Política permite revisão de rota. O que ela não costuma perdoar é a sensação de oportunismo. Quando o eleitor enxerga mudança de lado sem lastro claro, tende a responder com afastamento. E afastamento, em eleição, aparece no placar.
Também pesa contra a senadora o fato de a disputa pelo Senado em Mato Grosso do Sul estar sendo ocupada por nomes que falam de forma mais direta com eleitorados organizados. Nelsinho preserva base conhecida. Reinaldo tem estrutura e legado administrativo. Contar mantém conexão com o campo bolsonarista. Pollon aparece com presença entre setores da direita ideológica. Soraya, por sua vez, ficou num lugar nebuloso: não representa mais com nitidez o eleitor que a levou ao cargo e tampouco se consolidou como nome incontornável no outro lado. Em cenário assim, o mandato deixa de ser trampolim e vira vitrine de desgaste.
Nada impede reação ao longo da campanha. Ainda há indecisos, e o ambiente político pode mudar. Mas, até aqui, a fotografia é severa. Soraya Thronicke, que já vestiu o figurino da direita bolsonarista para chegar ao Senado e depois investiu contra Bolsonaro em praça pública, colhe agora o efeito clássico de quem tentou atravessar a ponte sem garantir o destino: perdeu identidade, não consolidou base eleitoral e entrou na disputa de 2026 como senadora em exercício, mas com desempenho de coadjuvante. Em Campo Grande, o sinal emitido pela pesquisa é claro: hoje, o eleitor olha para Soraya e não vê força para renovação de mandato. Vê desgaste.





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