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Gilmar tenta salvar advogado do Banco Master, mas acaba derrotado no STF

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Gilmar tenta salvar advogado do Banco Master, mas acaba derrotado no STF

Ministro defendeu trocar prisão preventiva por medidas cautelares em caso que envolve suspeita de propina milionária, imóveis de luxo e personagens ligados ao mercado financeiro

por Redação, 26/04/2026 às 13h

A tentativa do ministro Gilmar Mendes de aliviar a situação de Daniel Monteiro, advogado investigado no caso Banco Master, terminou em derrota dentro da própria 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal. A Corte decidiu manter a prisão preventiva do advogado, contrariando a posição do decano, que defendia a substituição da prisão por medidas cautelares.

O episódio ocorre em um momento delicado para o STF e para o próprio Gilmar, hoje um dos ministros que mais concentram críticas públicas contra a Corte. Em casos de forte repercussão, especialmente quando envolvem nomes influentes, suspeitas milionárias e operadores com acesso aos círculos de poder, qualquer tentativa de flexibilizar prisões tende a aumentar a desconfiança de parte da sociedade.

Daniel Monteiro foi preso no âmbito da operação Compliance Zero. A investigação apura suspeitas envolvendo o Banco Master, seu fundador Daniel Vorcaro e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa. A prisão do advogado havia sido autorizada pelo ministro André Mendonça, relator do caso.

De acordo com a Polícia Federal, Monteiro é suspeito de ter negociado R$ 146 milhões em propina com Vorcaro. Desse total, R$ 74 milhões teriam sido efetivamente transferidos. A apuração também aponta que imóveis de luxo teriam sido usados como forma de pagamento, em uma engrenagem que, pela gravidade dos valores e dos nomes envolvidos, coloca o caso entre os mais sensíveis do momento no cenário político e jurídico nacional.

Gilmar Mendes defendeu que a prisão preventiva de Daniel Monteiro fosse substituída por medidas alternativas, como uso de tornozeleira eletrônica, suspensão do exercício da advocacia e proibição de mudança de residência. Na avaliação do ministro, essas cautelares seriam suficientes para manter controle sobre o investigado sem a necessidade de mantê-lo preso.

A maioria da 2ª Turma, porém, não acompanhou esse entendimento. A decisão de manter a prisão impôs uma derrota direta a Gilmar e evitou que o investigado deixasse o regime de prisão preventiva neste momento da apuração.

O caso chama atenção porque expõe um contraste difícil de ignorar. O STF tem adotado posições duras em determinados processos de grande visibilidade pública, inclusive em casos que envolvem manifestações políticas, publicações nas redes sociais e conflitos institucionais. Ao mesmo tempo, quando surge uma tentativa de aplicar medidas menos severas a investigados ligados a suspeitas de corrupção milionária, a reação pública costuma ser imediata.

É nesse ponto que a imagem da Corte volta a sofrer desgaste. Para uma parcela expressiva dos brasileiros, a pergunta central não está apenas na legalidade técnica da decisão, mas na coerência do tribunal. A percepção de pesos diferentes em casos distintos tem alimentado críticas contra o Supremo e tornado ministros como Gilmar Mendes alvos frequentes de cobrança nas redes sociais e no debate político.

No mesmo julgamento, a 2ª Turma também decidiu manter a prisão preventiva do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa. Nesse ponto, a decisão foi unânime. O relator André Mendonça votou pela manutenção da prisão e foi acompanhado pelos ministros Luiz Fux, Nunes Marques e Gilmar Mendes. O placar ficou em 4 a 0. O ministro Dias Toffoli se declarou suspeito para julgar o caso.

A investigação cita seis imóveis de luxo que teriam sido usados como pagamento de propina. Todos foram atribuídos a Paulo Henrique Costa. Entre os empreendimentos mencionados estão Heritage, Arbórea, One Sixty, Casa Lafer, Ennius Muniz e Valle dos Ipês.

Outro ponto relevante da apuração é a suspeita de que Daniel Vorcaro teria interrompido pagamentos após tomar conhecimento de uma investigação do Ministério Público Federal. O procedimento foi instaurado em abril de 2025 para apurar o pagamento de propina a Paulo Henrique Costa.

Ainda conforme a Polícia Federal, Vorcaro teria ordenado a Daniel Monteiro que “travasse tudo”. A ordem teria bloqueado pagamentos e a formalização do registro das transações. Para os investigadores, esse tipo de movimentação é relevante porque pode indicar tentativa de preservar envolvidos ou impedir a continuidade de atos que estavam sob suspeita.

A derrota de Gilmar Mendes no julgamento não encerra o caso, mas tem peso político. O ministro saiu vencido justamente em uma pauta que une três elementos de forte impacto público: suspeita de corrupção, mercado financeiro e atuação do Supremo. Em tempos de baixa confiança nas instituições, esse conjunto é explosivo.

A prisão preventiva, no sistema jurídico brasileiro, não é uma antecipação de pena. Ela deve ser aplicada quando há elementos que indiquem risco à investigação, à ordem pública, à aplicação da lei penal ou possibilidade de continuidade das práticas investigadas. Ainda assim, quando se trata de casos envolvendo valores milionários e agentes com poder econômico, a sociedade costuma enxergar a manutenção da prisão como sinal de firmeza institucional.

O problema para o STF é que sua autoridade pública não depende apenas de decisões juridicamente fundamentadas. Ela também passa pela percepção de coerência. Quando a Corte endurece contra uns e parece mais cautelosa com outros, abre espaço para acusações de seletividade. Esse é o ponto político que torna o voto de Gilmar Mendes tão sensível.

Nos bastidores da opinião pública, o episódio deve ser usado por críticos do Supremo como novo argumento contra a Corte. A tentativa de trocar a prisão do advogado por cautelares será explorada como sinal de tolerância com investigados ligados a estruturas de influência, mesmo que a defesa desse tipo de medida seja juridicamente possível em determinadas circunstâncias.

A decisão da 2ª Turma, ao manter Daniel Monteiro preso, impediu que esse desgaste fosse ainda maior. Mesmo assim, o voto de Gilmar já produziu efeito político. Em um ambiente marcado por forte rejeição ao STF, especialmente entre setores conservadores, cada movimento do ministro passa a ser interpretado como parte de uma crise maior de credibilidade.

O caso Banco Master ainda deve render novos desdobramentos. As investigações seguem, os envolvidos poderão apresentar suas defesas e o processo continuará sob análise do Judiciário. Mas, no campo político, o estrago já está feito: Gilmar tentou aliviar a situação de um investigado em um caso de alto impacto e acabou derrotado dentro da própria Corte.

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