Vida pública de Furlan é exaltada na Câmara de Barueri em sessão do aniversário da cidade
Ex-prefeito relembra enchente histórica, decisões que mudaram a arrecadação do município, defesa de sua trajetória sem escândalos e deixa no ar que ainda se vê no centro da política local
por Redação
26/03/2026 às 22:36
A sessão solene pelos 77 anos de emancipação político-administrativa de Barueri, realizada na manhã desta quinta-feira (26) na Câmara Municipal, foi marcada por homenagens à cidade, pelo lançamento do selo e do carimbo comemorativos dos Correios e por uma forte exaltação à trajetória de Rubens Furlan. No ano em que completa 50 anos de vida pública, o ex-prefeito foi o nome mais celebrado do plenário, recebeu troféu em referência à data e ouviu de autoridades presentes que sua história se confunde com a própria fase de crescimento do município.
Se o protocolo da cerimônia era festejar o aniversário de Barueri, o discurso de Furlan levou o evento para outro patamar: o de balanço político, memória administrativa e afirmação de legado. Em fala longa e carregada de recordações, ele disse estar “bastante emocionado” e revisitou momentos centrais da própria carreira para sustentar a ideia de que a transformação da cidade não aconteceu por acaso, mas por decisões tomadas em períodos de dificuldade, pressão e escassez de recursos. Também procurou reforçar uma visão de convivência entre os poderes, ao dizer que, quando políticos brigam, quem paga a conta é a população.
Furlan retomou o início de sua vida pública ao lembrar que foi eleito vereador em 15 de novembro de 1976, aos 23 anos, como o mais votado da cidade. No discurso, tratou esse ponto não como mera lembrança biográfica, mas como símbolo de uma trajetória construída com ambição política aberta desde o começo. Disse que, ainda jovem, ouviu de lideranças antigas como Wagih Salles Nemer e Arnaldo Rodrigues Bittencourt que experiência e ousadia precisavam andar juntas. A partir dali, segundo relatou, passou a unir a bagagem dos mais velhos com o ímpeto de quem queria fazer o que muitos não conseguiram realizar em seu tempo.
Um dos trechos mais fortes da fala foi a lembrança da enchente que atingiu Barueri no começo de sua primeira passagem pela Prefeitura, em 1983. Furlan descreveu o Rio Barueri-Mirim extravasando, ruas tomadas pela água e a travessia de barco pelo Jardim São Pedro, com nível entre um metro e meio e dois metros. A imagem foi usada por ele como retrato de uma cidade ainda frágil diante dos próprios problemas e, ao mesmo tempo, como ponto de virada de sua gestão. Na leitura apresentada ao público, foi ali que nasceu a convicção de que Barueri precisaria de obras caras, estruturais e permanentes para não continuar refém das enchentes. A vereadora Cris da Maternal retomou esse episódio na sessão e reforçou a lembrança do então prefeito em meio ao cenário de destruição.
Foi nesse mesmo trecho que Furlan encaixou uma das passagens mais relevantes do discurso sob o ponto de vista jornalístico. Ao narrar a dificuldade para obter apoio do governo estadual, ele afirmou que percebeu que a cidade precisava aumentar arrecadação por conta própria. Citou o ISS como instrumento central dessa estratégia e disse, sem rodeios, que Barueri ajudou a inaugurar a guerra fiscal de alíquotas que depois se espalhou pelo país. Lembrou a negociação com empresa de leasing do BCN, a redução da alíquota e o crescimento expressivo da receita municipal, sustentando que, a partir dali, Barueri começou a avançar no ritmo que a transformaria em potência econômica. A fala deu ao discurso um peso maior do que o de uma simples homenagem, porque apresentou a expansão do município como consequência direta de uma escolha política assumida e reivindicada por ele próprio.
Ao abordar a área da saúde, Furlan também procurou defender a estrutura construída ao longo de seus mandatos. Reconheceu reclamações sobre demora no SAMEB, mas afirmou que parte dessa pressão é resultado do atendimento prestado a moradores de fora da cidade, citando até conversa com um paciente de Carapicuíba que preferia buscar assistência em Barueri diante da falta de médicos em seu município. O argumento foi usado para dizer que, quanto mais a cidade amplia sua capacidade, mais atrai demanda regional, o que torna o problema das filas mais complexo do que uma crítica isolada à gestão.
Houve ainda um trecho de caráter mais pessoal, mas com efeito político claro. Furlan contou qual foi o conselho dado à filha, a deputada estadual Bruna Furlan, quando ela decidiu entrar para a vida pública: vir para servir, e não para se servir do povo. Na sequência, usou a própria trajetória como prova do que dizia. Afirmou chegar aos 50 anos de vida pública sem ter promovido “nenhum escândalo” na cidade e disse que adversários até tentam imputar algo contra ele, mas não conseguem porque faltaria verdade nessas acusações. Foi uma forma direta de blindar seu nome diante do plenário e de reafirmar uma marca que pretende associar ao próprio legado: a de homem público duro, longevo e sem mancha que o tenha derrubado politicamente.
Esse movimento ficou ainda mais evidente quando Furlan relembrou uma frase dita por ele próprio no começo da carreira, ao subir num muro de igreja e afirmar que quem quisesse ser prefeito de Barueri dali em diante teria de ganhar dele. Na sessão, retomou a lembrança para dizer que sempre foi candidato em todas as disputas e emendou que, até hoje, teve a graça de ninguém ganhar dele. Em ambiente de celebração institucional, a frase teve peso de recado. Não soou como memória inocente, mas como demonstração de força política e de domínio de narrativa num momento em que seu nome continua mobilizando a cidade.
O ponto mais explícito nessa direção apareceu quando o ex-prefeito falou sobre a construção do fórum e a ausência de um plenário do júri que considerasse compatível com o porte de Barueri. Ao dizer que, se o povo o ajudar, ele volta para fazer “o plenário do júri mais bonito deste país”, Furlan rompeu a fronteira entre o discurso memorialista e a sinalização política. A fala, feita diante de representantes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, mostrou que a solenidade do aniversário da cidade também serviu como palco para reafirmar sua presença no jogo político barueriense.
As manifestações das autoridades presentes seguiram na mesma linha de reconhecimento. O prefeito Beto Piteri afirmou que Furlan é retrato do que Barueri representa hoje. O presidente da Câmara, Wilson Zuffa, disse que a história de sucesso do município se confunde com a trajetória do ex-prefeito. Deputados como Marcos Pereira e Cezinha de Madureira também associaram a evolução econômica e estrutural da cidade ao período em que Furlan esteve no centro do poder local. A sessão ainda teve o lançamento oficial do selo e do carimbo comemorativos dos 77 anos da cidade, que passarão a integrar o acervo do Museu Nacional dos Correios, em Brasília.
No fim, a cerimônia que celebrava o aniversário de Barueri acabou revelando algo maior: a tentativa bem-sucedida de transformar uma data institucional em tribuna de memória e prestígio político. Entre lembranças de enchentes, defesa de decisões econômicas, elogios ao próprio percurso e acenos ao futuro, Rubens Furlan ocupou o centro da sessão como personagem principal de uma narrativa que, para seus aliados e admiradores, se mistura à história da cidade. E fez isso do jeito que mais lhe convém: sem falar como alguém que apenas passou pela Prefeitura, mas como quem ainda quer ser tratado como medida de comparação para tudo o que Barueri foi, é e poderá voltar a ser.











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