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Exposição “Colo” emociona em Barueri e transforma o Dia das Mães em arte, memória e afeto

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Exposição “Colo” emociona em Barueri e transforma o Dia das Mães em arte, memória e afeto

Mostra reúne professores de Artes Visuais da Secretaria de Cultura e Turismo e apresenta obras marcadas por maternidade, proteção, ancestralidade e sensibilidade

Por Redação — 09 de maio de 2026, 11h28

A exposição “Colo – Homenagem ao Dia das Mães”, apresentada dentro do projeto Mestres em Foco, reuniu neste sábado (9) artistas, professores, alunos, famílias e visitantes em Barueri. A mostra ocupa o espaço expositivo com trabalhos dos professores de Artes Visuais da Secretaria de Cultura e Turismo e segue aberta ao público até 31 de maio, com visitação de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e aos sábados, das 8h às 13h.

O evento foi pensado como uma homenagem ao Dia das Mães, celebrado neste domingo (10), mas não se limita a uma abordagem comemorativa. A exposição trata o colo como imagem de cuidado, abrigo, memória, presença e proteção. As obras apresentam leituras diferentes sobre maternidade, infância, ancestralidade, feminino, vínculo familiar e afeto, criando uma mostra visualmente forte e emocionalmente acessível ao público.

Durante a visita, o público circulou entre pinturas, telas circulares, quadros figurativos, composições simbólicas e trabalhos ligados a diferentes linguagens artísticas. O ambiente teve clima de encontro, com artistas conversando com visitantes, explicando processos criativos e registrando a presença de familiares e alunos. A exposição também evidenciou a força dos professores como artistas em produção ativa, capazes de unir prática pedagógica, técnica e pesquisa visual.

Um dos destaques da mostra foi a obra de Maynara Jesus, artista visual e professora ligada ao universo do mangá, anime, desenho, pintura e animação 2D. Maynara nasceu em Osasco, iniciou os estudos em desenho e pintura ainda na infância e atualmente desenvolve trabalhos com forte presença narrativa. Na exposição, sua obra chamou atenção pela intensidade visual e pela forma como traduziu a maternidade em imagem de proteção diante de um mundo instável.

A composição apresentada por Maynara traz uma figura materna em uma cena de acolhimento, com uma criança protegida em meio a um fundo carregado de movimento. A parte posterior da obra transmite turbulência, com linhas circulares, contraste de cores, sensação de vento e deslocamento. Já o centro da imagem conduz o olhar para o gesto de amparo. A leitura é clara: há um mundo em conflito ao redor, mas existe um núcleo de proteção formado pelo vínculo entre mãe e filho.

A obra trabalha com forte carga expressionista, não no sentido de uma classificação fechada, mas pela maneira como usa cor, gesto, contraste e movimento para comunicar emoção. A imagem não busca apenas representar a maternidade. Ela tenta fazer o visitante sentir a tensão externa e, ao mesmo tempo, a segurança do colo. Esse equilíbrio entre conflito e abrigo dá à pintura uma potência rara.

Também é possível perceber um diálogo visual com referências conhecidas da história da arte. Os movimentos circulares e a energia do fundo lembram, em certos pontos, a vibração associada a Van Gogh. Já o uso de áreas douradas, o caráter ornamental e a força simbólica da figura feminina evocam uma lembrança estética de Gustav Klimt. Ainda assim, a obra preserva identidade própria, principalmente pela fusão entre linguagem contemporânea, traço narrativo e sensibilidade emocional.

Maynara também marcou presença pela simpatia durante a exposição. Em contato com visitantes, explicou sua trajetória, falou sobre o estudo contínuo em arte e demonstrou domínio sobre o próprio processo criativo. Sua obra se destacou pela maturidade da composição, pelo impacto visual e pela capacidade de transformar o tema da maternidade em uma cena de leitura imediata, mas cheia de camadas.

Outro trabalho que chamou atenção foi a obra de Paula Portella Motono, coordenadora do Departamento de Artes Visuais da Secretaria de Cultura e Turismo de Barueri. Paula nasceu em São Paulo, iniciou seus estudos em artes plásticas ainda criança e construiu uma trajetória ligada à experimentação, à pesquisa estética e à circulação em espaços culturais no Brasil e no exterior. Sua formação inclui passagem pela University of Arts London e especializações em instituições como o Instituto Tomie Ohtake e a Academia Brasileira de Arte.

Na mostra, Paula apresentou “Eco da Escolha – Eva, a primeira mãe da humanidade segundo o Velho Testamento”, obra em acrílica sobre tela, com 128 cm de diâmetro. A própria identificação da obra explica a cena: Eva inicia um novo destino após morder o fruto proibido e, envergonhada, cobre o corpo com folhas ao perceber que estava nua.

A pintura de Paula tem força simbólica e leitura refinada. A figura feminina aparece integrada a uma composição orgânica, envolta por folhas, linhas e tons que sugerem natureza, descoberta, culpa e consciência. A obra não trata Eva de forma simplificada. Ela mostra uma mulher atravessada por escolha, consequência e revelação. O corpo não aparece como elemento gratuito, mas como parte de uma narrativa de exposição, ruptura e início.

O formato circular da tela também fortalece a leitura. A obra parece envolver Eva em uma espécie de ciclo: origem, queda, consciência e transformação. Em uma exposição dedicada ao Dia das Mães, a escolha do tema ganha uma dimensão especial, já que Eva aparece como símbolo da primeira maternidade na tradição bíblica e também como personagem ligada à complexidade do feminino. Paula já havia apresentado anteriormente outro trabalho marcante sobre Eva, e voltou a surpreender pela forma como une técnica, delicadeza e densidade simbólica.

Entre os trabalhos de maior impacto visual também esteve a obra de Tânia Britto, artista visual e educadora com longa trajetória nas Artes Visuais da Secretaria de Cultura e Turismo. Tânia tem formação em Educação Artística, complementou sua atuação com estudos em Pedagogia, Design de Moda e Arteterapia, e soma mais de 25 anos de trabalho como professora de Artes Visuais.

Na exposição, Tânia apresentou uma obra com animais africanos, retratando uma leoa e seu filhote em uma cena de forte apelo materno. A pintura dialoga diretamente com o tema central da mostra. A leoa aparece em posição de presença e proteção, enquanto o filhote se aproxima em uma relação de dependência e afeto. A cena é simples na leitura, mas eficiente na construção emocional.

Em conversa com a equipe do Portal Agora Oeste, Tânia explicou que possui uma profunda conexão com a cultura africana e citou países como Angola e Moçambique, ambos marcados por vínculos históricos e culturais com o Brasil. Essa relação aparece de maneira simbólica na escolha da obra. A imagem da leoa não fala apenas de maternidade no reino animal. Ela também sugere força ancestral, proteção, liderança e continuidade.

Tecnicamente, a pintura de Tânia trabalha com uma paleta quente e naturalista, com domínio da figura animal e atenção ao olhar da leoa. O fundo em tons verdes e azuis cria profundidade sem disputar com o foco principal. A composição conduz o visitante para o encontro entre mãe e filhote. O resultado é uma obra de leitura direta, sensível e muito bem alinhada ao tema da exposição.

A presença da cultura africana na fala da artista também acrescenta uma camada importante à obra. Ao citar Angola e Moçambique, Tânia aproxima a pintura de uma memória histórica que ultrapassa a cena animal. A maternidade aparece como força de sobrevivência, transmissão e pertencimento. A obra une beleza figurativa, afeto e ancestralidade sem perder clareza visual.

A mostra também trouxe o trabalho de Arthur Murro, artista visual e professor de pintura. Arthur desenvolve uma produção plural e experimental, transitando entre diferentes técnicas e suportes. Sua obra investiga cor, forma e gesto como elementos centrais de comunicação visual.

O trabalho de Arthur apresentado na exposição traz uma leitura mais silenciosa e contemplativa. A imagem feminina, construída em uma atmosfera de leveza, aparece associada a tons suaves, água e paisagem. A obra se distancia da dramaticidade de outras peças da mostra e aposta em uma sensibilidade mais íntima. Há uma delicadeza no tratamento da figura, na escolha cromática e na maneira como o ambiente parece envolver a personagem.

Essa opção visual cria uma pausa dentro do conjunto da exposição. Enquanto algumas obras trabalham com tensão, força simbólica e impacto imediato, Arthur apresenta uma imagem de respiro. A composição sugere memória, introspecção e presença emocional. O uso de tons frios e a suavidade da cena aproximam o quadro de uma atmosfera afetiva, coerente com a proposta de “Colo”.

A exposição ainda reúne outros nomes e linguagens, incluindo artistas ligados à pintura artística, artesanato, crochê, tricô, bordado, amigurumi, aquarela, ilustração, mangá e anime. Essa diversidade dá à mostra uma característica importante: o visitante encontra obras de estilos diferentes, mas todas conectadas pela ideia de cuidado e vínculo.

“Colo” acerta ao não transformar o Dia das Mães em uma homenagem rasa. A exposição entende a maternidade como tema complexo, atravessado por beleza, esforço, proteção, memória, instinto, fé, ancestralidade e presença. Cada artista oferece uma leitura própria, algumas mais delicadas, outras mais intensas, mas todas ligadas à mesma pergunta: o que significa acolher alguém?

A mostra também valoriza o trabalho dos professores da rede cultural de Barueri. Os artistas aparecem não apenas como educadores, mas como criadores em atividade, com pesquisa, técnica e identidade visual. Esse ponto torna o projeto relevante para o cenário cultural da cidade, porque aproxima o público de quem ensina, produz e movimenta a formação artística local.

Também participaram da exposição outros profissionais e professores de Artes Visuais, com obras em diferentes linguagens, técnicas e propostas estéticas. Entre os nomes presentes na mostra estavam Ana Paula Oliveira, Rosinha, Juliana Soares, Denise Gomes Dantas, Bruno Henrique e Val Santos, além dos artistas destacados ao longo da reportagem.

Com boa presença de público, obras de forte apelo visual e uma proposta diretamente ligada ao Dia das Mães, a exposição “Colo” se consolida como uma das atrações culturais de Barueri neste mês de maio. A visita oferece ao público uma experiência sensível, com espaço para contemplação, memória e reconhecimento da arte como forma de traduzir sentimentos que muitas vezes escapam da linguagem comum.

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