Mulher de Moraes enviou contrato de R$ 129 milhões diretamente a Daniel Vorcaro, mostram diálogos
Minuta foi encaminhada por Viviane Barci de Moraes ao controlador do Banco Master; caso reacende debate sobre transparência, conflito de interesses e relações entre poder econômico e altas autoridades do país
Por Redação
04/07/2026 – 21h30
A advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), enviou diretamente ao banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, a minuta de um contrato de R$ 129 milhões para prestação de serviços jurídicos ao banco. A informação foi revelada pelo Estadão, com base em diálogos extraídos pela Polícia Federal do celular de Vorcaro.
Segundo a reportagem, a mensagem foi enviada por Viviane em 17 de janeiro de 2024. No texto, a advogada escreveu: “Bom dia! Segue a minuta do contrato. Abraço”. Cinco dias depois, Vorcaro respondeu perguntando como poderia proceder para a assinatura do documento, se de forma eletrônica ou por vias físicas.
O contrato previa o pagamento de R$ 3,6 milhões por mês ao escritório Barci de Moraes Associados, durante três anos. Caso fosse cumprido integralmente, o valor total chegaria a R$ 129 milhões até o início de 2027. De acordo com informações atribuídas à Receita Federal, o escritório recebeu R$ 80,2 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025.
O caso ganhou forte repercussão nacional porque envolve a esposa de um ministro do STF, um dos bancos mais investigados do país e valores considerados expressivos para contratos de consultoria jurídica. Embora não haja, até o momento, acusação formal contra Viviane Barci de Moraes ou contra o ministro Alexandre de Moraes nesse episódio, a revelação ampliou a pressão por explicações públicas sobre a natureza dos serviços prestados, os critérios de contratação e a dimensão financeira do acordo.
De acordo com o Estadão, o contrato previa a atuação do escritório em temas ligados ao Banco Central, à Receita Federal e ao Congresso Nacional. Já o escritório Barci de Moraes afirmou anteriormente que o trabalho teve foco em compliance, revisão de código de ética, políticas internas, prevenção à lavagem de dinheiro, gestão de riscos, proteção de dados e relacionamento institucional.
Ainda segundo a banca, durante a vigência do contrato foram realizadas 94 reuniões de trabalho, sendo 79 presenciais na sede do Banco Master, 13 com a presidência da instituição e duas por videoconferência com o departamento jurídico do banco. O escritório também informou ter produzido 36 pareceres e opiniões legais sobre temas regulatórios, previdenciários, trabalhistas, contratuais e de compliance.
Apesar das justificativas apresentadas, o volume financeiro do contrato segue chamando atenção. O valor mensal de R$ 3,6 milhões e o total previsto de R$ 129 milhões colocam o caso no centro de uma discussão sensível sobre a fronteira entre atuação privada, relações institucionais e possível conflito de interesses quando familiares de autoridades do Judiciário prestam serviços a grupos econômicos de grande influência.
As mensagens entre Viviane e Vorcaro foram localizadas no celular do banqueiro, apreendido pela Polícia Federal em novembro de 2025, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero. A operação apura suspeitas envolvendo o Banco Master, incluindo fraudes financeiras, corrupção, lavagem de dinheiro e outras irregularidades atribuídas a executivos e operadores ligados à instituição.
O Banco Master foi alvo de liquidação pelo Banco Central, e os pagamentos ao escritório foram interrompidos após o agravamento da situação da instituição financeira. Daniel Vorcaro, controlador do banco, passou a ser uma das figuras centrais das investigações que atingem o sistema financeiro, agentes públicos e personagens com trânsito em Brasília.
O escritório Barci de Moraes informou ao Estadão que não comenta tratativas envolvendo clientes. Em manifestações anteriores, a banca defendeu que os serviços foram efetivamente prestados e que a atuação se deu no campo técnico e jurídico.
O episódio, no entanto, deve continuar gerando questionamentos políticos e jurídicos. Para críticos, a contratação milionária reforça a necessidade de regras mais claras sobre transparência, impedimentos e conflitos de interesse envolvendo familiares de ministros de tribunais superiores. Para defensores da legalidade do contrato, advogados têm direito ao exercício profissional e à prestação de serviços privados, desde que não haja interferência indevida ou favorecimento.
Até o momento, as informações conhecidas indicam a existência de um contrato formal, pagamentos milionários e diálogos diretos entre a advogada e o controlador do Banco Master. O ponto central, agora, é saber se as explicações apresentadas serão suficientes para encerrar as dúvidas ou se o caso avançará para novas apurações dentro das investigações já em curso.




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