Artista de Barueri transforma Eva em símbolo de maternidade, escolha e consciência
Com mais de 200 obras e especialização em Londres, Paula Portela fala sobre a arte como linguagem de vida, pensamento e transformação pessoal
por Redação, dia 29/05/2026 às 23h45
Paula Portela recebeu a equipe de reportagem do Portal Agora Oeste com simpatia, educação e uma fala tranquila. À primeira vista, aparece a profissional articulada, acostumada a lidar com projetos, equipe, eventos e rotina pública. Mas bastaram poucos minutos de conversa para perceber que sua trajetória vai muito além da função que ocupa hoje na Prefeitura de Barueri.
Moradora de Barueri, Paula atua como coordenadora do Departamento de Artes Visuais da Secretaria de Cultura e Turismo. Seu trabalho envolve gestão, formação, organização de exposições, contato com professores, artistas, alunos e público. Essa, porém, é apenas a parte mais visível de uma história construída com arte, estudo, experiência, maternidade, pesquisa e uma relação intensa com aquilo que a criação visual consegue revelar.
Antes da gestora cultural, existe a artista. E antes da artista reconhecida, existe uma mulher que construiu sua própria linguagem a partir de muitas fases. Paula tem formação em Turismo, também passou por Propaganda e Marketing, estudou em instituições ligadas às artes visuais e fez especialização em Londres, na University of the Arts London, uma referência internacional na formação artística. A experiência fora do Brasil aparece em sua fala como parte de um caminho maior, marcado por repertório, vivência e curiosidade.
A própria Paula diz que nunca se viu sem arte. Mesmo quando passou por outras áreas, a criação continuou presente. O turismo deu a ela contato com eventos, organização e grandes públicos. O marketing trouxe leitura de comunicação, imagem e circulação. A vivência como sócia de uma galeria no Beco do Batman aproximou a artista do mercado, de outros criadores e da dinâmica das exposições. Hoje, tudo isso aparece tanto na produção artística quanto na forma como ela conduz projetos culturais.
Com mais de 200 obras produzidas, exposições individuais e coletivas, prêmios e participação em salões de arte, Paula não trata a pintura como atividade paralela. A arte ocupa o centro de sua forma de existir. Em sua fala, ela aparece como necessidade, pesquisa, expressão, alívio e pensamento. Não é algo que entra e sai de sua rotina. É uma presença permanente.
Entre tantas obras, uma figura ocupa lugar especial: Eva. A personagem aparece em diferentes fases da produção de Paula e parece funcionar como uma chave para compreender sua pesquisa artística. Não a Eva reduzida à culpa ou ao pecado, mas uma Eva mais complexa, ligada à origem, à maternidade, à consciência, à curiosidade, ao julgamento e à escolha.
Uma das obras mais importantes para Paula representa Eva após morder a maçã e cair do paraíso. A tela permanece em seu acervo pessoal. Esse detalhe ajuda a entender a força da conexão. Há obras que podem ser vendidas, circular e seguir para outros espaços. Mas algumas ficam com a artista porque ainda pertencem a uma camada íntima da própria trajetória.
A relação com Eva ganhou força em um período marcado pela maternidade. Paula conta que, ao se ver grávida, passou a refletir sobre vulnerabilidade, dependência, ancestralidade feminina e responsabilidade. Ela, que sempre se reconheceu como uma mulher empoderada e independente, se viu diante de uma condição nova: carregar outra vida, precisar de ajuda e lidar com uma fragilidade que até então não ocupava o mesmo lugar em sua narrativa pessoal.
A partir daí, vieram pensamentos sobre mulheres ancestrais. Paula imaginava como mulheres de outros tempos enfrentavam a gravidez, a lentidão do corpo, os riscos, a sobrevivência e a maternidade em contextos muito mais duros. Nesse processo, Eva surgiu como figura simbólica. A primeira mãe da humanidade, dentro da tradição bíblica, passou a ser também um caminho para pensar consciência, escolha, obediência, desobediência, culpa e responsabilidade.
O interesse de Paula por Eva não nasceu de uma leitura simples. Ela pesquisou como diferentes religiões interpretam a história de Adão e Eva. Observou que a personagem costuma ser responsabilizada sozinha, embora Adão também tenha comido o fruto. Percebeu ali uma narrativa cheia de camadas: a regra, a curiosidade, a transgressão, a consciência, o julgamento e a dificuldade humana de assumir os próprios erros.
Essa leitura torna sua Eva mais forte. Paula não pinta uma personagem passiva. Sua Eva pensa, escolhe, cai, percebe, cobre o corpo, atravessa consequências e continua carregando perguntas. É uma figura que não se encerra em uma única tela. A artista já havia criado uma Eva anos antes, dentro da série Black Power Divas, e agora segue desenvolvendo novas versões da personagem. Em sua fala, ainda existem “várias Evas” para sair.
O ponto mais revelador da entrevista aparece quando Paula fala sobre o tamanho de suas obras. Ao ser questionada sobre as telas impactantes, ela afirma que não pensou primeiro no público. Pensou em si mesma. Havia algo interno querendo extravasar. Ela precisava de espaço para pintar. A dimensão da tela, nesse caso, não é apenas escolha estética. É consequência de uma necessidade interior.
Essa frase ajuda a compreender a Paula artista. Há obras que parecem nascer de um pensamento técnico. Outras nascem de uma pressão interna. No caso de Eva, Paula sugere que havia algo que precisava sair, ganhar corpo, cor e escala. A pintura aparece como uma forma de transformar inquietação em imagem.
Quando termina um quadro dessa natureza, Paula não fala primeiro em orgulho. Fala em alívio. A palavra é precisa. Alívio de quem tirou algo de dentro. Alívio de quem conseguiu dar forma a uma pergunta. Alívio de quem transformou uma fase interna em obra.
Ao longo da entrevista, Paula também revela uma relação direta entre arte e autoconhecimento. Para ela, muitas vezes a pessoa só entende o que uma obra representa anos depois. Um gesto, uma cor, uma pincelada mais forte ou uma composição mais delicada podem revelar estados internos que, no momento da criação, ainda não estavam totalmente claros.
Essa percepção dá profundidade à sua produção. Suas obras não dependem apenas de técnica ou currículo. Elas carregam pesquisa, repertório e fases de vida. A artista parece compreender que algumas coisas são ditas com palavras, enquanto outras escapam pela tela. A obra registra aquilo que a fala nem sempre organiza.
Na função pública, essa sensibilidade não desaparece. Paula fala de gestão com calma, mas sem ingenuidade. Reconhece que coordenar pessoas é um dos maiores desafios de sua rotina. Defende um ambiente de trabalho profissional e humanizado, com estrutura, estratégia e cuidado. Para ela, é preciso equilibrar hierarquia e escuta, firmeza e convivência, direção e humanidade.
Essa visão ajuda a explicar a Paula profissional. Ela não chega à gestão apenas com conhecimento administrativo. Chega também com vivência artística, experiência em eventos, contato com galeria, formação em comunicação e compreensão do processo criativo. Isso muda a forma de lidar com artistas, professores, alunos e público.
A arte, para Paula, não fica restrita à tela. Ela alcança o modo de olhar o mundo. Em uma das frases mais fortes da entrevista, a artista compara a vontade de pintar à fome. Quando vem, precisa ser alimentada. Pode ser em uma grande obra sobre Eva, em uma aquarela, em um sketchbook ou em uma pesquisa paralela. A forma muda. A necessidade permanece.
Essa relação também aparece quando ela fala sobre o impacto da arte na vida das pessoas. Paula vê a criação como expressão, terapia e possibilidade de reconstrução interna. Relata casos de alunos que chegaram às aulas por questões emocionais, sem propósito ou desanimados, e encontraram na arte uma nova forma de se mover.
Para ela, a arte move o pensamento. A frase resume bem sua visão. Quem pinta passa a observar luz, sombra, cor e forma de outro jeito. Quem dança percebe o corpo de outra maneira. Quem escuta música, assiste a um filme, visita uma exposição ou cria algo com as próprias mãos reorganiza a relação com o tempo, com a memória e com a própria vida.
Por isso, compreender Paula Portela exige olhar para suas camadas. A coordenadora da Prefeitura de Barueri é parte da história. A artista com formação internacional, mais de 200 obras e pesquisa visual consistente também. A mãe, a mulher que reflete sobre vulnerabilidade, a pesquisadora de Eva, a gestora que busca equilíbrio e a criadora que sente alívio ao concluir uma tela formam uma mesma construção.
Em Paula, a arte não aparece como ornamento. Aparece como linguagem de vida. Suas obras parecem guardar fases, perguntas, símbolos e movimentos internos. Eva, nesse percurso, surge como personagem central: uma mulher diante da consciência, da escolha, do julgamento e da necessidade de seguir existindo depois da queda.
A impressão que fica é a de uma artista inteligente, sensível e inquieta. Paula fala com serenidade, mas sua obra carrega intensidade. Fala de gestão com pragmatismo, mas sua leitura sobre arte revela profundidade. Fala de maternidade sem frase pronta, de criação sem vaidade excessiva e de Eva como quem reconhece em uma personagem antiga perguntas que continuam atuais.
Ao final, Paula Portela se apresenta como uma dessas pessoas que não cabem em uma definição simples. É artista, mãe, gestora, pesquisadora e profissional da cultura. Mas, acima de tudo, é alguém que encontrou na arte uma forma de pensar, respirar, questionar e transformar fases da vida em linguagem visual.
A seguir, trechos selecionados da entrevista:
Portal Agora Oeste: Em que momento a arte deixou de ser apenas uma afinidade e passou a ocupar um lugar definitivo na sua vida?
Paula Portela: Eu nunca me vi sem arte. Minha primeira formação é em Turismo. Depois fiz Propaganda e Marketing e especializações em Artes Visuais. Também estudei em Londres, na University of the Arts London. Mas eu já pintava, já fazia tudo aqui. Eu quis ter essa experiência fora também.
Portal Agora Oeste: Sua trajetória passa por turismo, eventos, marketing, galeria e artes visuais. Como essas experiências ajudam a explicar a profissional que você é hoje?
Paula Portela: Tudo que eu aprendi nessa trajetória eu uso hoje. Usei sendo artista e uso aqui também como coordenadora de Artes Visuais. Aqui eu preciso lidar com administração, propaganda, evento, equipe, um monte de coisa. Se eu não tivesse tido essa vivência, eu ia ficar maluca, porque não é só a parte pedagógica.
Portal Agora Oeste: Entre tantas obras, por que Eva parece ocupar um lugar tão especial na sua pesquisa artística?
Paula Portela: Essa obra da Eva, após morder a maçã e cair do Paraíso, eu tenho um carinho especial por ela. Ela fica no meu acervo pessoal. Depois que tive meu filho, muitas coisas passaram pela minha cabeça. Eu me vi numa situação vulnerável quando estava grávida. Normalmente eu sou empoderada, de não depender de ninguém. Quando me vi grávida, me vi dependente, precisando de ajuda. Aí comecei a pensar muito nessas mulheres ancestrais. Como elas faziam? Como as mulheres das cavernas faziam quando estavam grávidas?
Portal Agora Oeste: A sua leitura sobre Eva parece passar por consciência, escolha, culpa e responsabilidade. O que essa personagem representa dentro da sua pesquisa?
Paula Portela: Eu comecei a pesquisar o que representa a história de Adão e Eva em várias religiões. Cada religião vê essa história de um jeito. Tem gente que repreende Eva, mas ela não comeu sozinha a maçã. Adão também comeu. Ele não tentou parar. E, quando Deus aparece, um culpa o outro. Então, além da consciência, tem símbolos de obediência, desobediência e de não assumir os próprios erros. É uma história muito rica.
Portal Agora Oeste: Quando você olha para essas obras, o que existe de Paula Portela dentro delas?
Paula Portela: Nessas obras eu não pensei no público, pensei em mim. O tamanho impactante delas é algo que estava dentro querendo extravasar. Eu precisava de espaço para pintar. E eu acho que tem um pouco de Eva dentro de mim. Tem essa simbologia. Tem o julgamento, a culpa, essa coisa de ela ter comido e ter errado sozinha. E não foi sozinha. Os dois erraram. Também tem um pouco de subversão. Eu me vejo como uma pessoa um pouco subversiva, não porque eu não aceite regras, mas porque eu questiono. Se você me falou que eu não posso comer isso, mas não me deu explicação, eu pergunto: por quê?
Portal Agora Oeste: Essa pesquisa sobre Eva já terminou ou ainda existem outras versões para nascer?
Paula Portela: Tenho várias Evas para sair de dentro de mim. Ainda estou decidindo se vou inserir um Adão. Por enquanto, estou na vontade de pintar as Evas.
Portal Agora Oeste: O que você sente quando termina uma obra dessa intensidade?
Paula Portela: Eu sinto alívio. Acabo um quadro desse e parece que tirei realmente algo de dentro de mim, algo que precisava sair.
Portal Agora Oeste: Como foi participar de um salão anual de arte em Paraty como artista de destaque?
Paula Portela: Foi uma delícia. Eu não me inscrevi nesse salão, fui convidada como artista de destaque. Para mim foi uma honra estar ali. Tive a oportunidade de viajar, participar da abertura, conhecer outros artistas que estavam expondo obras maravilhosas. Foi um encantamento. Fui com meu filho também, então foi muito legal.
Portal Agora Oeste: Como você define sua forma de gestão à frente do Departamento de Artes Visuais?
Paula Portela: Eu considero que levo de forma calma. Dentro de todas as funções que exerço aqui, que são muitas, a gestão de pessoas é o maior desafio. Não tem receita de bolo. O que eu procuro prover para minha equipe é um bom ambiente de trabalho, com estrutura adequada, e fazer uma gestão profissional, mas humanizada. É uma linha tênue entre o profissionalismo extremo e a humanização.
Portal Agora Oeste: A pintura ainda vem como uma necessidade?
Paula Portela: A pintura, para mim, vem igual fome. Sabe quando você está com fome e precisa comer? A vontade de pintar é assim. Se eu não estou pintando uma Eva agora, mas estou com vontade de pintar, pego meu sketchbook, pinto uma aquarela e vou me alimentando.
Portal Agora Oeste: O que a arte pode mudar na vida de quem cria ou entra em contato com ela?
Paula Portela: Para quem faz, a arte tem um poder terapêutico que, para mim, é algo sobrenatural. É expressão, é terapia, é botar as coisas para fora. Temos muitos relatos de pessoas que estavam em depressão ou sem propósito, começaram um curso e se animaram para a vida. Para quem não faz, mas admira, também é poderoso. Imagina a pandemia sem arte? Sem filmes, dança, música? A arte salvou a galera.
Portal Agora Oeste: Por que a arte importa tanto na formação humana?
Paula Portela: A arte move o pensamento. Tanto se você está olhando quanto se está fazendo, você está criando conexões. Isso impacta muito a vida das pessoas. Às vezes, alguém aposentado, sem motivo para acordar, começa um hobby artístico e ganha um novo propósito de vida. Isso é muito impactante.





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