Alcolumbre sinaliza pauta de impeachment e aumenta pressão sobre Moraes
Após a derrota de Jorge Messias no Senado, Alexandre de Moraes passou a enfrentar um cenário raro: a direita quer sua saída há anos, enquanto parte da esquerda pode deixar de protegê-lo politicamente
Por Redação | 2 de maio de 2026, às 22h
A pressão contra Alexandre de Moraes pode entrar em uma nova fase dentro do Senado. O ministro do Supremo Tribunal Federal, que há anos é alvo prioritário da direita, agora enfrenta um desgaste que começa a atravessar também setores da esquerda, especialmente depois da derrota de Jorge Messias, indicado pelo presidente Lula para uma vaga no STF.
O ponto central dessa movimentação não seria uma aliança formal entre esquerda e direita. Não se trata de um acordo público, uma frente parlamentar conjunta ou uma composição ideológica entre grupos adversários. O que pode ocorrer é algo mais pragmático e perigoso para Moraes: a direita continuar trabalhando abertamente por sua queda, enquanto parte da esquerda deixa de defendê-lo e passa a atuar nos bastidores para enfraquecer sua permanência no Supremo.
A rejeição de Jorge Messias pelo Senado mudou o ambiente político em Brasília. O placar foi de 42 votos contrários e 34 favoráveis, abaixo dos 41 votos necessários para aprovação. Foi a primeira rejeição de um indicado ao STF em mais de um século, o que transformou a derrota do governo Lula em um fato político de grande impacto.
A partir desse episódio, Alexandre de Moraes passou a ser visto por aliados do governo com desconfiança. Relatos de bastidores apontaram que uma ala do STF teria atuado ao lado de Davi Alcolumbre para barrar Messias. O ministro nega ter articulado contra o indicado de Lula, mas a simples circulação dessa versão foi suficiente para abrir uma fissura política importante.
Para a direita, a situação é simples. Moraes é tratado como símbolo do avanço do Judiciário sobre a política, principalmente por decisões envolvendo redes sociais, aliados de Jair Bolsonaro, investigações sensíveis e atos de 8 de janeiro. Nesse campo, a pauta do impeachment do ministro já existe há anos e tende a ganhar força sempre que o Senado demonstra disposição para enfrentar o STF.
A novidade está do outro lado. Parte da esquerda, que durante muito tempo viu Moraes como um aliado institucional contra o bolsonarismo, pode passar a enxergá-lo como um problema político. A derrota de Messias afetou diretamente Lula, expôs a fragilidade do governo no Senado e gerou irritação em grupos que esperavam apoio interno do Supremo à indicação do advogado-geral da União.
Na prática, isso pode criar uma convergência informal. A direita pressiona publicamente pela saída de Moraes. A esquerda, em vez de defendê-lo como fazia antes, pode reduzir sua proteção política, evitar blindagens e até trabalhar silenciosamente para que o ministro perca apoio no Congresso. Essa combinação não exige foto conjunta, acordo assinado ou discurso unificado. Basta que os dois lados, por motivos diferentes, passem a considerar Moraes um obstáculo.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, aparece como peça central nesse tabuleiro. A imprensa publicou que ele sinalizou a senadores da oposição a possibilidade de pautar pedidos de impeachment de ministros do STF em troca de apoio à sua reeleição ao comando da Casa. O movimento, se avançar, colocaria o Senado no centro da crise entre Congresso e Supremo.
Mesmo assim, a queda de Alexandre de Moraes ainda não é um fato consumado. O impeachment de ministro do STF depende de denúncia, admissibilidade, decisão política do Senado e votos suficientes para afastamento. O Brasil nunca aprovou um impeachment de ministro do Supremo. Portanto, o caminho é difícil, mas deixou de ser tratado apenas como discurso de oposição.
O risco para Moraes está justamente na mudança de ambiente. Enquanto a pressão vinha quase exclusivamente da direita, o ministro ainda contava com uma defesa forte de setores progressistas, da imprensa alinhada ao campo governista e de lideranças que viam sua atuação como necessária contra o bolsonarismo. Se essa proteção diminuir, o custo político de pautar um pedido de impeachment também diminui.
A esquerda não precisa aderir ao discurso da direita para prejudicar Moraes. Pode simplesmente deixar de agir para salvá-lo. Em política, a omissão também pesa. Um senador governista que antes defenderia o ministro com força pode preferir o silêncio. Um articulador próximo ao Planalto pode deixar a pauta andar. Um partido de centro-esquerda pode evitar comprar uma briga impopular. Aos poucos, o isolamento se constrói sem anúncio oficial.
Para Lula, o caso também é delicado. A derrota de Messias mostrou que o governo não controla o Senado como precisava. Se o presidente insistir em proteger Moraes, pode entrar em atrito com grupos que atribuem ao ministro parte da derrota do indicado ao STF. Se não protegê-lo, pode abrir espaço para uma crise institucional maior, com o Supremo pressionado pelo Congresso em ano eleitoral.
A direita, por sua vez, tentará transformar esse desgaste em capital político. O discurso deve girar em torno da limitação dos poderes do STF, da reação do Senado e da necessidade de frear decisões consideradas abusivas. Nesse cenário, Moraes continuaria como principal alvo, porque concentra sobre si a maior rejeição entre os grupos conservadores.
O ponto mais importante é que esquerda e direita não precisam estar juntas para produzirem o mesmo resultado. Basta caminharem em direções paralelas. A direita quer derrubar Moraes por enfrentamento político e ideológico. Parte da esquerda pode querer enfraquecê-lo por ressentimento, cálculo de poder ou reação à derrota de Messias. O destino pode ser o mesmo, ainda que as razões sejam diferentes.
Esse é o fator que torna o momento mais perigoso para Alexandre de Moraes. O ministro já enfrentou críticas, protestos, pedidos de impeachment e ataques de parlamentares. A diferença agora é que a defesa automática pode não ser tão automática. Se o desgaste avançar dentro do campo governista e se Alcolumbre decidir pautar a discussão, Moraes poderá enfrentar ainda este ano a pressão mais séria desde que chegou ao Supremo.
Ainda há muitas variáveis. O Senado pode usar a pauta apenas como instrumento de negociação. A esquerda pode recuar e voltar a defender Moraes caso perceba risco de fortalecimento excessivo da oposição. O STF pode tentar recompor pontes com o Congresso. Mas a crise aberta pela rejeição de Jorge Messias alterou o cálculo político.
Alexandre de Moraes segue no cargo e não há, até agora, garantia de que um processo de impeachment avance. O que existe é um novo ambiente. A direita quer sua saída. Parte da esquerda pode deixar de protegê-lo. E, em Brasília, quando adversários diferentes passam a enxergar vantagem no enfraquecimento da mesma pessoa, a queda deixa de ser impossível e passa a depender apenas de oportunidade, votos e conveniência política.




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