Exclusivo: de jovem tímida e de origem humilde à vice-prefeita de Barueri, Dra. Cláudia conta sua trajetória
Vice-prefeita e atual secretária de Assistência e Desenvolvimento Social, ela construiu sua carreira na rede pública, passou pela Câmara Municipal, comandou a Secretaria da Mulher e hoje responde por uma das áreas mais delicadas da administração
por Redação
11 de abril de 2026 | 21h01
A equipe de reportagem do Portal Agora Oeste foi recebida por Dra. Cláudia, vice-prefeita de Barueri e atual secretária de Assistência e Desenvolvimento Social. No primeiro contato, chamou atenção a forma serena com que se posiciona: educada, clara ao falar e com raciocínio bem articulado. Ao longo da entrevista, ficou evidente também a maneira como trata cada assunto, num estilo de quem aprendeu a ouvir antes de falar.
A postura ajuda a entender a própria trajetória. Antes de chegar ao núcleo do Executivo municipal, Dra. Cláudia construiu um caminho ligado à formação técnica, ao serviço público e ao atendimento direto da população. Durante a conversa, relembrou que veio de família humilde, cursou Química na USP antes de migrar para Medicina na Unesp de Botucatu, decisão que redefiniu sua vida profissional. Depois de formada, foi aprovada em concurso e passou a atuar em Barueri, onde se estabeleceu na rede pública de saúde.
Foi na medicina, segundo ela, que nasceu a visão de serviço que depois seria levada para a política. Ao explicar esse ponto, a vice-prefeita afirmou que o atendimento no SUS nunca permitiu olhar apenas para a doença física. Em muitos casos, o paciente chegava com dor, mas também com conflitos familiares, sofrimento emocional, vulnerabilidade social e problemas dentro de casa. Essa percepção ajuda a entender por que sua atuação política passou a se concentrar em temas ligados à infância, à mulher, à saúde e à assistência social.
Na pediatria, especialidade que escolheu seguir, esse contato com as famílias ficou ainda mais próximo. Dra. Cláudia relembrou experiências duras vividas no pronto-socorro, citou casos de óbito infantil que a marcaram e falou com franqueza sobre o peso de atender crianças que já chegavam em estado grave. Esse passado ajuda a explicar um traço visível em sua fala: ela não trata o serviço público como teoria. Fala a partir da vivência de quem lidou com urgência, sofrimento, limitações e necessidade de resposta rápida.
Outro ponto importante da entrevista foi a própria transformação pessoal. Hoje em posição de destaque na vida pública de Barueri, ela diz que nem sempre teve facilidade para se comunicar. Contou que era tímida, tinha dificuldade para falar em público e precisou desenvolver essa habilidade com o tempo, primeiro pela profissão e depois pela política.
Na Câmara Municipal, esse perfil apareceu em projetos de forte alcance social. Entre as propostas ligadas ao seu mandato estão a política “Menstruação Sem Tabu”, voltada à conscientização sobre menstruação e ao acesso a absorventes e coletores menstruais; iniciativas de divulgação da Lei Maria da Penha; medidas ligadas ao direito de brincar e ao esporte paralímpico; além de projetos recentes sobre doença falciforme e ampliação de exames de triagem em gestantes. Em todas essas frentes, há um eixo comum: prevenção, informação e proteção de quem mais precisa.
Ao falar sobre pobreza menstrual, Dra. Cláudia deixou claro o motivo de ter abraçado essa pauta. Para ela, a falta de absorventes afeta a dignidade, a frequência escolar e o futuro de meninas que acabam faltando às aulas por constrangimento ou falta de condições básicas. Na pauta da violência contra a mulher, afirmou que o contato com esse problema começou ainda na medicina, quando muitas pacientes deixavam escapar sinais de agressão moral, psicológica, financeira e física. Segundo ela, muitas mulheres chegam ao atendimento sem dizer tudo de forma direta, o que exige sensibilidade para perceber o que está por trás da queixa.
Esse olhar ganhou outra dimensão quando ela assumiu a Secretaria da Mulher. Embora tenha permanecido poucos meses no cargo, Dra. Cláudia afirma que o período teve aumento de atendimentos, ampliação de matrículas em atividades físicas, extensão de algumas aulas e maior divulgação de serviços voltados a mulheres com câncer. Também citou o trabalho do CRAM, estrutura de atendimento a mulheres vítimas de violência, com suporte psicológico, social e jurídico. Ao comentar o tema, resumiu de forma direta o ciclo da agressão: violência, pedido de desculpas, reconciliação temporária, nova agressão e permanência da vítima por dependência emocional e financeira. Na avaliação dela, o atendimento funciona, mas exige tempo.
Hoje, o maior desafio está na Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social. Ao falar sobre a Sads, Dra. Cláudia deixou claro que a pasta vai muito além da sede administrativa. Ela citou CRAS, CREAS, acolhimento institucional de crianças e adolescentes, atendimento a idosos, cursos profissionalizantes, aluguel social, apoio a moradores de rua, Núcleo de Moda e outros serviços ligados à rede de assistência do município. Trata-se de uma estrutura ampla, voltada ao enfrentamento da vulnerabilidade, da ruptura de vínculos familiares, da proteção social e da capacitação profissional.
Segundo a secretária, uma das primeiras medidas ao assumir a pasta foi reorganizar setores estratégicos, especialmente CRAS e CREAS, que ela considera o coração da assistência social. A decisão, conforme explicou, foi colocar pessoas tecnicamente preparadas na coordenação dessas áreas e, a partir daí, alinhar as equipes e padronizar o atendimento. Na visão dela, essa reorganização já começou a produzir efeitos na rede, tanto entre os profissionais quanto entre quem busca o serviço, mesmo sem mudanças imediatas em toda a estrutura.
Durante a entrevista, Dra. Cláudia também demonstrou envolvimento pessoal ao falar das casas de acolhimento e do atendimento a idosos. Relatou que a rede recebe desde crianças com poucos dias de vida até adolescentes próximos da maioridade, muitas vezes em situações familiares complexas e sem solução rápida. No caso dos idosos, mencionou histórias de abandono, ausência de vínculo familiar e quadros severos de dependência. Foi nesse trecho que ficou mais evidente o peso diário da área social, onde a gestão não lida apenas com protocolos, mas com histórias difíceis e urgentes.
Outro ponto mencionado foi o aumento da demanda em alguns serviços. Segundo a secretária, há setores da assistência social operando acima da capacidade inicialmente prevista, especialmente no acolhimento institucional. Isso acontece porque a entrada de pessoas continua alta, enquanto a saída depende de processos familiares, judiciais ou de reorganização de vida que nem sempre avançam no mesmo ritmo. O cenário ajuda a dimensionar a pressão enfrentada hoje pela rede.
No conjunto, a entrevista mostra uma figura pública que chegou ao centro da gestão municipal por um caminho diferente do político tradicional. Dra. Cláudia saiu de uma juventude marcada pela timidez, formou-se em uma área de alta responsabilidade, construiu experiência na rede pública, passou pelo Legislativo, assumiu a Secretaria da Mulher e hoje conduz a Assistência Social em uma cidade de grande porte. Em sua trajetória, medicina, política e gestão aparecem ligadas por um mesmo eixo: o contato direto com pessoas em situação de fragilidade.
Esse percurso ajuda a explicar por que sua atuação pública está tão ligada ao cuidado, à proteção e ao atendimento. Em Barueri, onde a máquina pública exige resposta rápida e sensibilidade em áreas de forte pressão social, Dra. Cláudia ocupa hoje uma posição de peso. E leva para o cargo a soma de três experiências que marcaram sua formação: a escuta da médica, a exposição da vereadora e a responsabilidade diária da gestora.
Ao longo da entrevista, Dra. Cláudia falou sobre a escolha pela medicina, a entrada na vida pública, os desafios da assistência social e o peso humano das áreas em que atua. A seguir, alguns dos principais trechos da conversa:
A senhora sempre teve facilidade para falar em público?
Não. Quando eu era criança, eu não conseguia falar. A minha voz não saía. Na faculdade, meus colegas falavam para eu falar mais alto. Eu aprendi a desenvolver a fala por necessidade, e a política me fez aprender muito mais.
O que levou a senhora a escolher uma profissão voltada ao cuidado e, depois, ao trabalho social?
Eu acho que o servir está desde o dia em que resolvi fazer medicina. Quando você faz um atendimento médico, principalmente no SUS, você está ali para servir mesmo. E a pessoa vai lá não só com uma doença física; às vezes a doença social dela e as marcas emocionais são muito mais profundas e acabam gerando a doença física.
Como esse olhar foi construído na prática?
Eu não chegava só no sintoma. Eu queria saber o que estava acontecendo por trás. A minha consulta era muito mais do que os 15 minutos preconizados pelo SUS. Às vezes eu precisava entender o ambiente daquela criança, o comportamento da família, o emocional. Era uma consulta mais demorada, mas muito mais produtiva.
Por que a pobreza menstrual virou uma pauta do seu mandato?
Foi uma necessidade extrema de cuidado. Quando não tem recurso financeiro nem para comer direito, como vai ter para comprar absorvente? E qual o problema disso? Elas faltam na escola. Estão deixando de aprender e atrasando o futuro delas.
Como a senhora resume o trabalho com mulheres vítimas de violência?
As mulheres não conseguem sair desse círculo com facilidade. Tem violência, pedido de desculpas, volta, depois tudo começa de novo. Existe a questão emocional e a questão financeira. A gente tem um trabalho forte, psicológico, social e jurídico. Resolve, mas é a médio e longo prazo.
O que a senhora procurou fazer ao assumir a Assistência Social?
O que a gente fez de diferente foi acolher. Eu trouxe pessoas capacitadas para coordenar esses setores e depois fomos capacitando as equipes. Só de dizer ‘estamos aqui, estamos junto com vocês’ e dar um norte, eu já ouvi de várias pessoas: não mudou tudo ainda, mas já mudou o atendimento.
O que mais tocou a senhora na atual função?
Aqui tudo é apaixonante e, ao mesmo tempo, doloroso. Quando a gente fala das casas de acolhimento, tem criança que sai da maternidade com poucos dias de vida e vai para lá. Tem adolescente que completa 18 anos e precisa sair. E com os idosos também. São histórias muito marcantes.
GEANE PEREIRA DA SILVA
São pessoas que sabe se colocar no lugar do outro. Está no DNA





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