Coordenadora de Marketing de Lula escreveu “odeio branco” e sugeriu “queimar evangélicos”
Publicações sobre bancada evangélica, raça e Bolsonaro provocam preocupação entre aliados; deputada pede desculpas e contesta print sobre igrejas
Por Redação | 09/10/2026 às 23h00
Escolhida para ajudar a comunicação digital de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, a deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) passou de aposta nas redes sociais a motivo de preocupação para integrantes da campanha. Publicações sobre evangélicos, aborto, raça e adversários políticos voltaram a circular e forneceram material para ataques da oposição. Segundo reportagem do Metrópoles, integrantes da coordenação petista demonstraram incômodo e receiam que a associação da parlamentar ao presidente prejudique sua imagem na disputa contra Flávio Bolsonaro (PL).
Uma das mensagens de conteúdo mais agressivo foi publicada em junho de 2024, durante a discussão do projeto que pretendia equiparar ao homicídio o aborto realizado após 22 semanas de gestação. Ao defender que vítimas de estupro decidissem sobre a interrupção da gravidez, Ana Elisa empregou palavrões e escreveu: “QUEIMA ESSA BANCADA EVANGÉLICA”. A postagem também atacava o projeto de lei. O registro reproduzido pela reportagem de Claudio Dantas se refere à bancada parlamentar; não corresponde à frase “colocar fogo em crente”, que passou a ser associada ao episódio. Tampouco permite, isoladamente, concluir que se tratava de uma ameaça literal de incêndio.
Outra publicação, de janeiro de 2025, ampliou a controvérsia ao atacar apoiadores da direita. Depois de assistir ao filme Ainda Estou Aqui, a parlamentar escreveu que “quem ainda apoia a direita, merece putrificar nesse tal inferno”. Na sequência, fez referência à crença dos evangélicos no inferno. O texto consta de uma compilação de publicações preservadas de seu perfil e combina hostilidade a um grupo político com uma provocação religiosa.
No campo racial, a mensagem “odeio branco”, publicada em março de 2024, também voltou a circular. A mesma compilação registra uma postagem de outubro de 2020 em que Ana Elisa considerava gratificante ridicularizar uma pessoa branca por sua cor, relacionando a declaração ao histórico de opressão contra negros. As duas mensagens passaram a integrar o conjunto de publicações exploradas por críticos da deputada.
Em março de 2025, outra declaração sugeriu responsabilizar criminalmente quem defendesse Bolsonaro: “Defendeu o Bolsonaro? Vai ser acusado de tentativa de golpe junto, pronto”. A reportagem de Claudio Dantas afirma ter visto a mensagem antes de sua exclusão. O teor da frase mistura apoio político com acusação criminal, sem apresentar uma conduta individual que justificasse essa associação.
As publicações sobre religião não se limitam aos textos mais antigos. Em maio de 2026, Ana Elisa sugeriu que Lula deveria “tirar a isenção de impostos das igrejas evangélicas”. A VEJA informou ter confirmado essa postagem. O direcionamento específico aos templos evangélicos tornou a declaração especialmente sensível para uma campanha que precisa ampliar sua interlocução com esse eleitorado.
O fechamento de igrejas exige uma distinção entre os registros. Há mensagens de 2023 que fazem referências irônicas à suposta promessa de Lula de fechar templos e distribuir um chamado kit gay. Entretanto, a equipe de Ana Elisa nega a autenticidade do print de outubro de 2022 divulgado por Nikolas Ferreira, no qual ela supostamente defenderia o fechamento de igrejas. Em nota, a assessoria afirmou que a mensagem é uma montagem e anunciou que pedirá perícia. Esse print específico permanece contestado e não deve ser tratado como uma declaração comprovada.
Outros registros incluem uma sugestão de que o Vaticano proibisse padres de manter redes sociais. O Metrópoles também relatou a circulação de mensagens nas quais a deputada defendia que Alexandre de Moraes bloqueasse plataformas digitais. O conjunto colocou religião, liberdade de expressão e hostilidade política no centro de uma controvérsia envolvendo uma das novas colaboradoras da comunicação de Lula.
Em resposta, a assessoria reconheceu a existência de publicações antigas autênticas, alegou que foram retiradas de contexto e informou que Ana Elisa se retrata e pede desculpas aos ofendidos. A nota afirmou ainda que ela mudou de opinião, é católica e defende a liberdade religiosa. A parlamentar atribuiu a suspensão de seu perfil no X às ameaças recebidas e disse que continua ajudando a campanha presidencial.
Na avaliação editorial, o episódio representa um revés para a estratégia digital petista: uma figura chamada para ampliar a comunicação passou a exigir explicações sobre suas próprias declarações. Há relatos de preocupação nos bastidores e material sendo utilizado pela oposição. Ainda não existem, porém, dados apresentados que permitam medir quantos votos Lula perdeu ou afirmar que sua campanha foi “demolida”. O desgaste político está documentado; sua dimensão eleitoral permanece em aberto.



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