Ministério Público denuncia nove por esquema que teria operado em Barueri
Denúncia aponta movimentação inicial de R$ 126,8 milhões por meio da chamada “compra de dinheiro”; investigados negam participação nos crimes
Por Redação
9 de setembro de 2026, às 23h15
O Ministério Público de São Paulo denunciou nove pessoas suspeitas de integrar um esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado ao menos R$ 126,8 milhões. Segundo a acusação, parte das operações teria ocorrido em Barueri e em outras cidades da Região Metropolitana de São Paulo, com a utilização de empresas de diferentes setores para transferir recursos e dificultar a identificação da origem do dinheiro.
A denúncia foi apresentada à Justiça no dia 31 de agosto e está relacionada à Operação Falsa Las Vegas, deflagrada em maio de 2026. A investigação apura a possível lavagem de valores provenientes do tráfico de drogas, de apostas ilegais e de outras atividades criminosas. Entre os investigados há pessoas apontadas pelas autoridades como ligadas ao Primeiro Comando da Capital, o PCC.
A apresentação da denúncia não significa que os acusados tenham sido condenados. Caberá à Justiça analisar o documento, decidir se existem elementos suficientes para abrir uma ação penal e, durante o processo, avaliar as provas apresentadas pela Promotoria e os argumentos das defesas. Todos os denunciados têm direito à ampla defesa e devem ser considerados inocentes até uma eventual decisão definitiva.
O método investigado ficou conhecido como “compra de dinheiro”. De acordo com o Ministério Público, empresários interessados em receber grandes quantias em espécie aceitavam realizar transferências bancárias para contas indicadas pelos fornecedores do dinheiro. Em troca da operação, seria cobrada uma comissão que variava entre 1,5% e 4% do valor movimentado.
Na prática, uma empresa recebia dinheiro vivo e fazia pagamentos eletrônicos para pessoas ou empresas indicadas por quem entregava os recursos. Essa circulação dificultaria o rastreamento da origem dos valores e permitiria que quantias obtidas por atividades ilegais ingressassem no sistema financeiro com aparência de operações comerciais regulares.
O valor de R$ 126,8 milhões é tratado pelos investigadores como uma estimativa inicial. A Polícia Civil considera que o montante pode aumentar porque parte das anotações apreendidas ainda precisa ser analisada. Documentos ilegíveis, planilhas incompletas e movimentações consideradas divergentes não entraram no primeiro cálculo. O material deve passar por uma consolidação do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro.
Durante a Operação Falsa Las Vegas, a Justiça determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 6 bilhões em contas relacionadas a pessoas físicas e jurídicas investigadas. A medida teve caráter preventivo e não representa a confirmação de que todo o valor bloqueado tenha origem criminosa. O objetivo foi evitar a movimentação ou retirada dos recursos enquanto as apurações avançavam.
A investigação identificou pelo menos 29 empresas que teriam sido utilizadas nas operações financeiras. Os CNPJs atuavam em áreas como autopeças, locação de veículos, embalagens, materiais para construção e programas de educação. As atividades investigadas teriam alcançado Barueri, Osasco, Itapevi, Carapicuíba e a capital paulista.
A ligação com Barueri aparece principalmente por causa de uma empresa de tecnologia instalada no município. Em dezembro de 2025, policiais cumpriram mandado de busca no endereço da ASX Participações e Tecnologia. No local, segundo a investigação, foram encontradas anotações relacionadas a apostas, comprovantes financeiros e referências ao site clandestino Black Vegas.
Os investigadores também relataram a apreensão de documentos sobre cerca de 150 máquinas de pagamento. Parte do material indicaria uma negociação para a aquisição do site Black Vegas por uma empresa de apostas chamada Aposte Fácil. O valor registrado seria de R$ 1 milhão, dividido em 40 parcelas. Um dos empresários citados no caso declarou que a compra não foi concluída.
A ASX possui contratos públicos na Região Metropolitana para o fornecimento de soluções tecnológicas destinadas à área educacional. A existência desses contratos, isoladamente, não indica irregularidade. A denúncia está concentrada nas movimentações financeiras e nas relações apontadas pela investigação. Até o momento, não há informação de que a Prefeitura de Barueri tenha sido denunciada ou acusada de participar do esquema.
Segundo a Promotoria, Eduardo Moreno Lopes, conhecido como “Tio”, seria um dos responsáveis pela coordenação das operações. Ele é considerado foragido. Mensagens e comprovantes reunidos pelos investigadores apresentariam ordens de pagamento, divisão de valores, identificação de beneficiários e confirmações de transferências.
Uma frente recente da apuração também apontou transferências que somariam aproximadamente R$ 900 mil para empresas relacionadas a Ygor Daniel Zago, conhecido como “Hulk”. Ele já foi condenado por tráfico internacional de drogas e é apontado pelas autoridades como integrante do PCC. A defesa de Zago nega envolvimento com organizações criminosas e afirma que ele não conhece Eduardo Moreno Lopes.
Os pagamentos teriam sido intermediados por Manoel Sérgio Sanches, empresário do setor de veículos de luxo que está preso e responde a acusações de organização criminosa e lavagem de dinheiro. A defesa de Lopes também contesta a acusação, afirma que a investigação foi conduzida de forma incompleta e sustenta que ele não foi ouvido, apesar de ter se colocado à disposição das autoridades.
As defesas de outros empresários citados igualmente negam participação em apostas ilegais, lavagem de dinheiro ou organização criminosa. Representantes de Sandro Calliari e Varlei Silva afirmam que as operações comerciais eram regulares e que a inocência dos clientes será demonstrada durante o processo.
Outra empresa mencionada na investigação, a Center Lopes, informou que não foi denunciada e que suas receitas têm origem lícita e documentação regular. A companhia mantém contratos para o fornecimento de veículos utilizados por serviços públicos, incluindo viaturas, ambulâncias e automóveis destinados a equipes municipais. A relação comercial com órgãos públicos não permite concluir que os contratos estejam vinculados aos crimes investigados.
A Justiça deverá analisar individualmente a situação dos nove denunciados, as movimentações atribuídas a cada um e a validade das provas recolhidas. Caso a denúncia seja recebida, os acusados serão formalmente chamados a apresentar suas defesas, indicar testemunhas e contestar os elementos reunidos pelo Ministério Público. As investigações financeiras continuam e o valor total supostamente movimentado ainda poderá ser atualizado.




Publicar comentário