Barueri registra mais de 70 mil faltas em consultas e exames em quatro meses
Levantamento da Secretaria de Saúde aponta que 26% dos agendamentos não tiveram comparecimento; ausências prejudicam o aproveitamento das vagas na rede municipal
Por Redação | 11 de outubro de 2026, às 21h
A rede pública de saúde de Barueri enfrenta um problema que compromete o aproveitamento de milhares de vagas destinadas à população. Entre janeiro e abril de 2026, foram registradas 70.922 faltas em consultas médicas e exames, conforme dados divulgados pela Secretaria Municipal de Saúde. O número representa aproximadamente 26,1% dos 271.581 agendamentos realizados no período, o equivalente a mais de uma ausência a cada quatro atendimentos marcados.
Os números revelam um desafio para a administração municipal e para os próprios usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Enquanto pacientes aguardam por consultas especializadas, procedimentos e exames diagnósticos, milhares de horários reservados deixam de ser utilizados. Quando a ausência não é comunicada antecipadamente, a administração perde a oportunidade de oferecer aquela vaga a outra pessoa que também necessita de atendimento.
De acordo com o levantamento oficial, foram registrados 169.863 agendamentos de exames durante os quatro primeiros meses do ano. Desse total, 39.431 resultaram em faltas, aproximadamente 23,2%. A situação é ainda mais preocupante nas consultas médicas: dos 101.718 agendamentos, 31.491 não tiveram comparecimento, índice próximo de 31%.
Em média, a rede municipal contabilizou aproximadamente 17,7 mil ausências por mês. Esse volume evidencia como o não comparecimento pode afetar a organização dos serviços e a utilização da estrutura pública de saúde, especialmente em especialidades que dependem de equipamentos, profissionais e horários previamente reservados.
O problema não é recente. No primeiro quadrimestre de 2025, Barueri havia registrado 73.743 faltas em consultas e exames. A comparação com o mesmo período de 2026 indica uma redução de aproximadamente 3,8% no número absoluto de ausências. Apesar da diminuição, o patamar permanece elevado e demonstra que a dificuldade continua presente na rotina da rede municipal.
Os números também chamam a atenção porque Barueri dispõe de uma extensa estrutura de atendimento, que inclui unidades básicas de saúde, centros de especialidades, serviços de diagnóstico e o Hospital Municipal Dr. Francisco Moran. Mesmo com essa estrutura, o aproveitamento das vagas depende não apenas da capacidade de atendimento, mas também da comunicação entre pacientes e unidades de saúde.
Entretanto, atribuir todas as faltas exclusivamente à falta de compromisso dos usuários seria uma interpretação incompleta. Problemas de deslocamento, horários incompatíveis com a jornada de trabalho, dificuldades de comunicação e o intervalo entre a solicitação e a realização do atendimento são fatores que precisam ser investigados antes de se estabelecerem as causas do elevado índice de ausências.
A própria Secretaria Municipal de Saúde reconheceu a necessidade de compreender melhor esse cenário. Em junho, a secretária Luciane Amaral informou que a administração estava realizando um diagnóstico para identificar os motivos que levam os pacientes a não comparecer aos procedimentos agendados. Entre os aspectos analisados estão a distância das unidades, o tempo necessário para chegar ao atendimento e a adequação dos horários disponibilizados.
A investigação é importante porque as medidas de conscientização, embora necessárias, podem não ser suficientes para resolver o problema. A identificação das causas permite avaliar se os mecanismos de comunicação, confirmação de consultas e remarcação de procedimentos atendem às necessidades da população.
Em abril de 2026, Barueri também sancionou a Lei Municipal nº 3.232, que instituiu uma política de conscientização e combate ao absenteísmo em consultas, exames e procedimentos médicos agendados na rede pública. A iniciativa busca estimular a responsabilidade dos usuários e reduzir os prejuízos provocados pelo não comparecimento.
Outro ponto que merece atenção é o impacto administrativo das faltas. Uma consulta não realizada não significa necessariamente que todo o seu custo operacional tenha sido desperdiçado, mas pode representar capacidade de atendimento não aproveitada. Profissionais, equipamentos e estruturas permanecem organizados para serviços que deixam de acontecer conforme o planejamento.
O levantamento divulgado pela Prefeitura, contudo, não apresenta uma estimativa financeira específica das perdas associadas às ausências. Também não detalha quais especialidades registraram os maiores índices de faltas, quais unidades concentram mais ocorrências ou quantos agendamentos poderiam ter sido reaproveitados mediante cancelamento antecipado. Essas informações seriam importantes para avaliar a dimensão do problema e orientar soluções mais eficazes.
Para diminuir os prejuízos, a Secretaria de Saúde orienta que os moradores comuniquem a impossibilidade de comparecimento com pelo menos 48 horas de antecedência. O cancelamento pode ser realizado pelo aplicativo Saúde Barueri ou pelo telefone (11) 4349-0600, permitindo que a administração tente disponibilizar o horário a outro paciente.
A orientação vale tanto para consultas quanto para exames. Ao informar antecipadamente que não poderá comparecer, o usuário contribui para melhorar o aproveitamento da rede pública e possibilita que outro morador seja chamado, conforme os procedimentos de agendamento adotados pelo município.
A redução das faltas, entretanto, exige uma atuação conjunta. Aos pacientes cabe a responsabilidade de comparecer ou comunicar suas ausências sempre que possível. Ao poder público, compete garantir sistemas acessíveis de confirmação e cancelamento, melhorar a comunicação com os usuários e identificar eventuais obstáculos que dificultem o acesso aos serviços.
Diante de mais de 70 mil ausências em apenas quatro meses, o desafio de Barueri vai além da conscientização individual. O município precisa transformar os dados em medidas capazes de melhorar a gestão das vagas, reduzir o tempo de espera e ampliar o aproveitamento dos recursos destinados à saúde.




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