Lula afirma que “90% dos evangélicos ganham benefícios do governo” e causa indignação em líderes cristãos
Declaração feita em evento do PT é vista como tentativa de reduzir a fé evangélica a dependência estatal e acirra desgaste político com um dos maiores grupos religiosos do país
por Redação — 7 de fevereiro de 2026, 23h58
Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a comemoração dos 46 anos do Partido dos Trabalhadores, em Salvador (BA), reacendeu tensões entre o governo federal e o eleitorado evangélico. Ao discursar para a militância petista, Lula afirmou que “90% dos evangélicos ganham benefícios do governo” e que, por isso, o partido deveria se aproximar desse público. A fala, além de não ter respaldo estatístico, foi interpretada por líderes religiosos como preconceituosa, reducionista e politicamente oportunista.
O problema central da declaração não está apenas no tom, mas na ausência completa de dados que sustentem o número citado. Não existe, nos cadastros oficiais de programas sociais, qualquer recorte por religião. Benefícios como Bolsa Família, BPC e outros auxílios federais são concedidos com base em renda, composição familiar e critérios socioeconômicos, não em crença religiosa. Ainda assim, o presidente apresentou o percentual como fato consolidado.
Os próprios números demográficos desmontam a afirmação. O Censo de 2022 aponta cerca de 47,4 milhões de evangélicos no Brasil. Se a fala presidencial fosse verdadeira, mais de 42 milhões deles dependeriam de algum benefício governamental. No entanto, mesmo considerando o total de brasileiros que recebem algum tipo de assistência direta do governo federal — cerca de 94 milhões de pessoas, o equivalente a 44% da população —, estimativas baseadas em renda indicam que o número de evangélicos em situação de baixa renda varia entre 26 e 32 milhões. A distância entre esses dados e o percentual citado pelo presidente é expressiva.
A repercussão foi imediata. Parlamentares de diferentes espectros, especialmente ligados a pautas conservadoras e religiosas, criticaram a fala. Para eles, o discurso reforça uma lógica antiga do PT: associar grupos religiosos à pobreza estrutural e tratá-los como público a ser “conquistado” por meio de políticas assistenciais, não como cidadãos autônomos com valores próprios. A crítica recorrente é que o governo insiste em enxergar a fé evangélica como um bloco homogêneo e vulnerável, ignorando sua diversidade social, econômica e cultural.
Líderes religiosos também reagiram com dureza. Pastores e teólogos apontaram que a declaração revela uma visão instrumental da religião, na qual a fé é reduzida a um dado eleitoral e seus fiéis, a potenciais beneficiários dependentes do Estado. Segundo eles, a construção histórica do evangelicalismo no Brasil se deu majoritariamente fora da tutela estatal, com forte ênfase em trabalho, organização comunitária, família e igreja local — valores que entram em choque com a narrativa apresentada pelo presidente.
O episódio ocorre em um contexto já sensível. O governo enfrenta dificuldades crescentes de diálogo com segmentos evangélicos desde o início do mandato, especialmente após declarações controversas, embates culturais e alinhamentos internacionais que geraram desconfiança. Pesquisas recentes mostram que a rejeição ao presidente nesse grupo permanece elevada, e falas como essa tendem a aprofundar o distanciamento.
Do ponto de vista político, a declaração também levanta questionamentos estratégicos. Ao admitir que “não pode esperar que eles falem bem” do governo, Lula reconhece a perda de apoio entre evangélicos, mas, ao mesmo tempo, opta por um argumento que reforça estigmas. Em vez de abrir espaço para diálogo real, a fala foi lida como tentativa de enquadrar o grupo dentro de uma narrativa assistencialista, o que gerou efeito contrário ao desejado.
A reação nas redes sociais e em círculos religiosos indica que o desgaste não será pontual. Para muitos evangélicos, o incômodo não está apenas no erro factual, mas no simbolismo da declaração: a ideia de que sua fé, suas escolhas políticas e sua identidade podem ser explicadas ou neutralizadas por benefícios do Estado. Esse tipo de leitura, segundo críticos, ignora a complexidade do fenômeno religioso no Brasil e trata convicções profundas como simples variáveis eleitorais.
Em um ano que antecede uma disputa eleitoral decisiva, episódios como esse tendem a pesar. A relação entre o governo Lula e o eleitorado evangélico já é marcada por desconfiança mútua, e declarações sem lastro técnico reforçam a percepção de distanciamento.





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