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Direita reage mal ao avanço do Judiciário e paga o preço com a liberdade

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Direita reage mal ao avanço do Judiciário e paga o preço com a liberdade

Falta de articulação política, excesso de discurso e despreparo institucional enfraquecem a reação conservadora diante de um STF cada vez mais poderoso

Opinião, coluna, escrito por Thiago Turett
02 de janeiro de 2026 – 07h18

O avanço do Judiciário sobre o campo político conservador produziu um efeito concreto e mensurável: pessoas estão pagando com a própria liberdade. Prisões, endurecimento de regimes, cassação de benefícios, restrições de comunicação e medidas cautelares severas passaram a atingir, de forma recorrente, cidadãos, lideranças e articuladores ligados à direita. O ponto central, porém, vai além da indignação imediata. Parte relevante desse cenário é consequência direta de erros estratégicos cometidos pela própria direita ao longo dos últimos anos.

O Supremo Tribunal Federal sempre foi poderoso. Desde a Constituição de 1988, seus ministros detêm prerrogativas amplas e capacidade de interferir decisivamente na vida política do país. Durante décadas, esse poder foi equilibrado por autocontenção, respeito institucional e pela ausência de ministros dispostos a levá-lo aos limites máximos. Esse freio informal deixou de existir. O que se observa hoje é um STF forte, organizado, coeso e disposto a exercer sua autoridade de maneira expansiva, frequentemente derrubando decisões do Congresso em uma única canetada, anulando leis aprovadas por ampla maioria e impondo sua interpretação como fato consumado.

Enquanto isso, a direita política reagiu de forma desorganizada e imatura. Em vez de construir uma resposta institucional sólida, optou pelo caminho do barulho. Deputados e senadores transformaram seus mandatos em palcos virtuais, focados em vídeos, lives e discursos inflamados. A atuação parlamentar profissional — articulação, negociação, convencimento e formação de alianças — foi substituída por espetáculos digitais que geram engajamento, mas não alteram o equilíbrio real de poder.

Esse erro cobra um preço alto. Pessoas estão sendo presas. Não de forma simbólica, mas real. A liberdade, nesse contexto, deixou de ser um conceito abstrato para se tornar uma moeda de troca política. Lideranças com capacidade de vencer eleições ou influenciar o debate público são neutralizadas por decisões baseadas em argumentos frágeis, fantasiosos ou desproporcionais feitos por Ministros do STF. Ainda assim, essas decisões produzem efeitos imediatos, pois partem de um poder blindado e praticamente imune a qualquer controle externo.

Outro fator que agrava o cenário é a percepção crescente de que ministros do STF se tornaram inalcançáveis. Denúncias, reportagens e escândalos envolvendo relações impróprias e possíveis conflitos de interesse — como o caso amplamente noticiado envolvendo o Banco Master — circulam no debate público, mas não geram consequências práticas. A sensação é de blindagem total. Não importa o que a população pense, o que o mundo político reclame ou o que a imprensa revele: nada parece produzir efeito institucional concreto.

Essa blindagem é potencializada pela fraqueza estratégica da direita no Congresso, especialmente no Senado. Em vez de pressionar, negociar e insistir, muitos parlamentares conservadores preferem desistir antes mesmo de tentar, alegando que “todo mundo é corrupto” e que buscar assinaturas ou apoio seria inútil. Esse discurso, além de conveniente, ignora completamente a história das democracias. Nenhuma mudança relevante ocorreu sem enfrentamento político real, sem alianças imperfeitas e sem persistência.

Enquanto a direita bate cabeça, briga internamente e se fragmenta, o STF segue avançando. O Judiciário não atua no ritmo das redes sociais. Age com método, planejamento e visão de longo prazo. Cada decisão se soma à anterior, criando jurisprudência e normalizando exceções. O resultado é um ministro individualmente mais poderoso do que todo o Congresso Nacional, capaz de suspender leis, anular decisões e impor sua vontade institucional sem necessidade de diálogo.

A direita, ao confundir popularidade com poder, tornou-se parte do problema. Ao transformar a política em performance, deixou o campo institucional livre para o avanço de um Judiciário que não presta contas a ninguém. O custo desse erro não é apenas político. É humano. Pessoas comuns, militantes, empresários, comunicadores e lideranças locais veem sua liberdade restringida enquanto seus representantes se contentam com aplausos virtuais.

Se quiser mudar esse cenário, a direita precisará amadurecer rapidamente. O caminho passa por reduzir o barulho público e aumentar a atuação silenciosa. Passa por construir alianças sólidas, inclusive fora do próprio espectro ideológico. Passa por fortalecer o Senado nas próximas eleições, elegendo parlamentares preparados para exercer o papel constitucional de contenção. Passa, também, por eleger um chefe do Executivo comprometido com a reconstrução do equilíbrio entre os Poderes.

Impeachment de ministro do STF não se faz com vídeo viral nem com discurso inflamado. Faz-se com maioria, estratégia, paciência e poder real. Enquanto a direita não compreender isso, continuará pagando um preço alto. E esse preço, como já está claro, é a liberdade de pessoas que se tornaram vítimas de um sistema cada vez mais concentrado, blindado e indiferente à vontade popular.

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