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Efeito dos remédios pode explicar lapso psicológico atribuído por Bolsonaro ao episódio da tornozeleira

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Efeito dos remédios pode explicar lapso psicológico atribuído por Bolsonaro ao episódio da tornozeleira

Especialistas explicam como a combinação de pregabalina e sertralina pode afetar o comportamento, enquanto o episódio reforça a disputa política em torno da prisão do ex-presidente

por Redação – 23/11/2025, 22h04

A versão apresentada por Jair Bolsonaro durante a audiência de custódia, realizada neste domingo, reacendeu a discussão sobre os efeitos de medicamentos usados no tratamento de ansiedade, dor neuropática e depressão. O ex-presidente afirmou ter experimentado “alucinações” e “certa paranoia” após iniciar o uso de pregabalina e sertralina, o que o levou a tentar abrir sua tornozeleira eletrônica com um ferro de solda. A justificativa provocou reações imediatas tanto de especialistas quanto de adversários políticos.

Segundo a ata da audiência, Bolsonaro declarou acreditar que o equipamento continha algum tipo de escuta. Ele relatou que iniciou um dos remédios cerca de quatro dias antes dos fatos que culminaram em sua prisão e disse não se recordar de episódios semelhantes anteriormente. A tornozeleira, parcialmente derretida, gerou alerta no sistema de monitoramento às 0h07 de sábado, horas antes da detenção.

Farmacêuticos e psiquiatras ouvidos por nossa reportagem confirmam que os dois medicamentos, usados de maneira inadequada ou em dosagens incorretas, podem desencadear sintomas como alucinações, confusão mental e alterações sensoriais. Marcelo Polacow, presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo, explica que tanto a sertralina quanto a pregabalina possuem reações adversas registradas. No entanto, frisa que esses quadros costumam ocorrer em situações específicas, como aumento abrupto de dose, uso combinado sem supervisão ou particularidades metabólicas de cada paciente.

A psiquiatra Natasha Ganem reforça que, embora a associação entre os remédios seja considerada segura sob acompanhamento, indivíduos predispostos podem reagir de forma imprevisível. Ela lembra que há relatos consistentes de sintomas psicóticos induzidos pela pregabalina, inclusive durante retirada repentina. A interação simultânea com um antidepressivo pode amplificar esse risco.

Durante a audiência, especialistas observaram que a fala de Bolsonaro no vídeo divulgado tinha certa lentidão e tremor, algo compatível com o uso dessas substâncias, mas impossível de concluir sem exame toxicológico. Polacow afirma que uma dosagem plasmática deveria ter sido solicitada para verificar se houve excesso de um ou de ambos os medicamentos. Segundo ele, qualquer análise permanece no campo da hipótese.

A defesa médica enviada ao STF informou que a equipe decidiu suspender o medicamento após quadro de confusão mental e alucinações na noite de sexta-feira. De acordo com o relatório, a pregabalina havia sido prescrita por outra profissional, sem o conhecimento da equipe principal que acompanha o ex-presidente.

Bolsonaro negou intenção de fuga e disse que comunicou a tentativa de abrir a tornozeleira logo após perceber o que estava fazendo. Ele também rejeitou que a vigília convocada por seu filho tivesse propósito de gerar tumulto, alegando que o ponto de encontro da manifestação ficava a cerca de 700 metros de onde estava.

A audiência de custódia analisou apenas a legalidade da prisão e o respeito às garantias fundamentais, sem entrar no mérito das acusações. O caso agora segue para a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, que avaliará nesta segunda-feira se manterá a detenção decretada pelo ministro Alexandre de Moraes. Além de Moraes, fazem parte do colegiado os ministros Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino.

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