Fraudes digitais crescem 70% na Black Friday: veja como se proteger
Golpistas usam inteligência artificial para criar sites falsos, clonar vozes e enganar até consumidores experientes. Especialistas alertam: o preço do descuido pode ser maior que qualquer desconto.
Por Leandro Monteiro – Portal Agora Oeste
A Black Friday se tornou o maior evento de consumo do Brasil — e também o período favorito dos golpistas digitais. Segundo levantamento da ClearSale e da TransUnion, as tentativas de fraude aumentam cerca de 70% durante a semana de promoções, impulsionadas pelo uso de tecnologias de inteligência artificial (IA) que tornam os golpes mais sofisticados e difíceis de identificar.
Com um simples clique, o consumidor pode perder muito mais do que dinheiro. A pressa por aproveitar o “desconto imperdível” e a confiança em links compartilhados por e-mail, WhatsApp ou redes sociais abrem portas para um tipo de crime que cresce silenciosamente: o roubo de dados pessoais.
Nos bastidores, algoritmos analisam comportamentos, registram preferências e constroem perfis detalhados de consumo. Boa parte dessas informações é coletada sem consentimento, em sites e aplicativos de aparência legítima, e vendida a terceiros. O resultado é um ambiente digital onde o consumidor, muitas vezes sem perceber, passa de cliente a produto.
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) tenta estabelecer limites, mas a velocidade da tecnologia é maior que a da lei. Boa parte dos dados dos brasileiros continua hospedada fora do país, em servidores de gigantes estrangeiras, o que gera um novo debate: quem realmente controla a privacidade digital do Brasil?
Embora a IA seja uma das armas preferidas dos golpistas, ela também se transformou em aliada poderosa na defesa do consumidor. Plataformas de e-commerce e bancos digitais usam sistemas baseados em IA para cruzar dados e identificar padrões suspeitos de comportamento — compras em horários atípicos, dispositivos desconhecidos ou transações fora do perfil do usuário. Quando algo parece errado, a tecnologia bloqueia a operação em segundos.
A IA também ajuda a filtrar informações falsas e comparar preços de forma inteligente. Sites como Buscapé, Zoom e Google Shopping utilizam algoritmos para verificar históricos de preços, detectar promoções enganosas e sinalizar se o desconto é verdadeiro ou artificial.
Assistentes virtuais — como ChatGPT, Alexa e Gemini — já conseguem responder perguntas sobre a confiabilidade de sites, sugerir formas seguras de pagamento e até alertar quando um domínio é falso.
Outra inovação está nos modelos preditivos de segurança bancária: eles analisam milhares de transações por segundo e aprendem com cada tentativa de fraude, tornando-se mais eficazes a cada ataque. Essa evolução contínua faz com que a inteligência artificial seja hoje a principal linha de defesa silenciosa entre o consumidor e o golpe digital.
Mas, para que isso funcione, o consumidor precisa fazer a sua parte: manter dispositivos atualizados, usar autenticação de dois fatores e desconfiar de ofertas fora da curva. Tecnologia ajuda — mas o senso crítico ainda é insubstituível.
Mas os criminosos não ficaram para trás. A mesma IA que ajuda a proteger também é usada para criar sites falsos quase idênticos aos originais, gerar mensagens personalizadas com nome e CPF do comprador, e até clonar vozes em ligações telefônicas. Um simples áudio de WhatsApp pode ser o suficiente para reproduzir a fala de alguém e convencer a vítima de que está falando com o banco, com a loja — ou com um parente.
Os números impressionam. Na Black Friday de 2024, foram registradas 17,8 mil tentativas de fraude no comércio eletrônico brasileiro, somando R$ 27,6 milhões em golpes evitados, segundo a ClearSale. O valor médio de cada tentativa aumentou de R$ 1.200 em 2023 para R$ 1.550, uma alta de 29%. De acordo com o Procon-SP, o número de reclamações durante a Black Friday de 2024 subiu 36,9% em relação ao ano anterior, enquanto os atendimentos gerais aumentaram 23,7%.
Já uma pesquisa da Ipsos revelou que 60% dos brasileiros acreditam que há fraudes nas promoções e 63% dizem não saber identificar golpes feitos com IA.
É um cenário em que a desconfiança cresce junto com a tecnologia — e a confiança se tornou a principal vulnerabilidade.
E se o golpe acontecer? O primeiro passo é manter a calma e agir rápido. Bloqueie imediatamente o cartão utilizado e comunique o banco. Guarde todos os comprovantes e registros — prints, e-mails, mensagens, anúncios. Em seguida, registre um boletim de ocorrência (pode ser online, no site da Polícia Civil do seu estado) e denuncie o caso no portal consumidor.gov.br ou no Procon-SP.
Se o golpe envolver uso indevido de dados pessoais, procure a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). E, em casos de crimes cibernéticos, a SaferNet Brasil também recebe denúncias anônimas e orienta as vítimas.
Esses canais não apenas ajudam a tentar recuperar o prejuízo, mas também fortalecem a rede de proteção digital, gerando estatísticas que auxiliam investigações e políticas públicas.
No fim das contas, a maior lição da Black Friday talvez não esteja nas vitrines, mas nas entrelinhas: a pressa é inimiga da segurança. O impulso de comprar agora pode custar caro depois.
A Black Friday passa, mas os dados ficam — e cada clique é uma escolha entre comodidade e consciência.
Proteger informações pessoais não é apenas um ato técnico: é um gesto de liberdade.
Em um mundo onde tudo é monitorado, rastreado e vendido, talvez a verdadeira oferta seja essa — comprar com segurança, sem se vender.




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