O pobre não sabe 10% do que está acontecendo no Brasil
Por Leandro Monteiro – Colunista Portal Agora Oeste
Quando Paulo Guedes disse que “o pobre não faz ideia de 10% do que está acontecendo no Brasil”, muita gente criticou o tom da frase. Mas basta olhar os números da chamada “crise silenciosa” para perceber que, de fato, a maior parte da população não tem ideia da gravidade da situação econômica que atinge as empresas brasileiras.
De acordo com dados da Fecomercio-SP, com base em levantamento da Serasa Experian, o país soma hoje 7,2 milhões de empresas inadimplentes, o equivalente a 31,6% dos negócios ativos. Desses, 6,8 milhões são micro e pequenas empresas, responsáveis por mais de R$ 141 bilhões em dívidas em aberto. Só em 2024, os pedidos de recuperação judicial cresceram 61,8%, um verdadeiro retrato da fragilidade do setor produtivo.
A explicação é direta: juros altos, inflação persistente e crédito restrito. Três fatores que combinados criam um ambiente sufocante para quem empreende. E quando o empresário não consegue manter sua atividade, a conta chega rapidamente para trabalhadores e consumidores na forma de demissões, salários achatados, menos serviços e preços mais altos.
Enquanto isso, parte da população tem a impressão de que a economia está melhorando porque houve algum aumento real na renda ou geração de empregos formais. Mas por trás dessa “melhora”, os pequenos negócios – que respondem por grande parte dos empregos e da circulação de renda no país – estão quebrando em silêncio.
Esse contraste mostra exatamente o que Guedes quis dizer: o brasileiro comum não tem acesso às informações sobre o colapso das empresas, porque o debate público prefere simplificar e esconder os números duros. E quando não entendemos as causas, ficamos vulneráveis a soluções mágicas, promessas fáceis e narrativas populistas.
A crise das empresas brasileiras não é apenas um problema econômico: é um problema social. Sem micro e pequenas empresas saudáveis, não há bairro que prospere, não há comunidade que se sustente. É urgente que a comunicação seja mais clara, que a sociedade tenha acesso a esses dados e que a política econômica seja repensada para garantir sobrevivência e crescimento sustentável.
Enquanto continuarmos ignorando essa realidade, os brasileiros seguirão sem saber nem 10% do que realmente está acontecendo.
Se os números atuais já são preocupantes, as projeções para o futuro são ainda mais alarmantes. Segundo análise do UBS BB publicada pela InfoMoney, o Brasil pode entrar em um período de estagflação em 2025 – um cenário em que a economia não cresce e os preços continuam subindo. O banco projeta um PIB de apenas 1,3%, enquanto a inflação deve se manter acima do teto da meta.
Os dados recentes também reforçam a fragilidade: vendas no varejo, produção industrial, setor de serviços e emprego ficaram abaixo do esperado, e a confiança de empresários e consumidores recuou. Em dezembro de 2024, por exemplo, foram criados apenas 20 mil postos de trabalho, quando a expectativa era de 90 mil.
Para agravar a situação, o UBS BB avalia que o Banco Central não terá espaço para cortar os juros neste ano. Pelo contrário: a instituição projeta novas altas da Selic, o que torna ainda mais difícil o acesso a crédito e investimentos produtivos.
Esse quadro fecha o ciclo: empresas endividadas, investimentos em queda, inflação persistente e juros em alta. É a tempestade perfeita que explica por que tantos negócios estão quebrando e por que a crise, apesar de silenciosa, é cada vez mais profunda.
E é justamente nesse ponto que os impactos se tornam mais cruéis: o pobre sofre silenciosamente as consequências dessa crise sem entender de onde vêm. O salário que não cobre mais o mês por causa da inflação disfarçada; o emprego formal que dá lugar a subempregos e bicos; o comércio de bairro que fecha as portas, reduzindo serviços e oportunidades; a fila do posto de saúde que aumenta porque faltam recursos públicos; e o endividamento crônico que prende famílias em juros impagáveis. Tudo isso são efeitos diretos de uma economia fragilizada que não aparecem nas estatísticas do dia a dia, mas corroem a vida das pessoas comuns. No fim, a frase de Guedes se confirma: o pobre não sabe 10% do que está acontecendo. Mas sente 100% no bolso, na mesa, no transporte, no bairro e nas oportunidades que desaparecem diante de uma crise que insiste em ser silenciosa.
Fontes: Fecomercio-SP / Serasa Experian / InfoMoney / UBS BB




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