A conta chegou: tarifa de 50% expõe fraqueza diplomática e polarização política. O Brasil precisa mais de técnica que de discurso.
12 de Julho de 2025 às 10:42
Por Leandro Monteiro | Colunista
Muita gente tem me perguntado como ficam as coisas agora pós taxação dos EUA ao Brasil em 50% que se inicia agora em 01 de Agosto de 2025. A culpa é de quem? E qual minha análise?
Vamos primeiro dividir a análise em partes, como a bolsa de valores reagiria? Qual o impacto? E o preço da carne vai aumentar no Brasil?
Bolsa de valores:
1. Quais setores seriam afetados?
Nem todos os produtos exportados do Brasil para os EUA seriam afetados. Os efeitos na Bolsa de valores vão depender de:
• Quais produtos estão sujeitos à tarifa (aço? alumínio? agronegócio? manufaturados?).
• Qual o peso dessas empresas no Ibovespa. Por exemplo:
• Se a tarifa atingir mineradoras, siderúrgicas ou frigoríficos, como Vale, Gerdau, CSN, JBS, Marfrig, o impacto pode ser maior.
• Se afetar setores com pouca presença na Bolsa, o efeito será limitado.
- Efeitos esperados no curto prazo:
• Real desvalorizado: uma possível fuga de capital pode enfraquecer o real, pressionando o câmbio.
• Ações exportadoras penalizadas, especialmente as que dependem dos EUA como principal destino.
• Cenário de incerteza: investidores estrangeiros podem reduzir exposição ao Brasil, o que costuma afetar negativamente o Ibovespa.
• Juros futuros podem subir: se o mercado entender que isso pressiona a inflação ou piora o risco-país. - Há setores que podem se beneficiar?
Sim, alguns setores podem ser beneficiados ou se manterem neutros:
• Empresas voltadas ao mercado interno (como varejo, energia, bancos).
• Exportadoras com foco em China ou Europa podem não ser afetadas.
• Se o real cair muito, agronegócio e papel e celulose (como Suzano, Klabin) podem até se beneficiar no câmbio.
Em resumo, se a tarifa de 50% se confirmar e afetar produtos relevantes para empresas listadas na Bolsa:
• O Ibovespa tende a cair no curto prazo, refletindo risco comercial e fuga de capital.
• O impacto será mais forte em empresas exportadoras diretamente atingidas.
• A reação do mercado pode ser parcial ou temporária, dependendo de como o governo brasileiro responde e se há espaço para negociação.
E o preço da carne bovina aos brasileiros? Vai cair?
É improvável que o preço da carne bovina no Brasil caia em virtude da tarifa americana — na verdade, o efeito esperado é justamente o contrário: aumento.
Por que os preços devem subir, não cair? Nao sobraria mais carne bovina disponivel no mercado interno?
Em primeiro lugar, a demanda externa segue firme. Os EUA são o segundo maior importador de carne brasileira — e o Brasil tem até ampliado as vendas para aquele mercado, mesmo com tarifas altas. Além disso, a China mantém volumes recordes de compras.
Em segundo lugar, a oferta interna é menor em 2025. Com a retenção de fêmeas na pecuária (início da reversão de ciclo), a oferta doméstica tende a cair cerca de 4–5% . Com menor oferta e mais demanda firme existe uma pressão por alta de preços.
Outro fator importante é desvio para outros mercados e repasse. Produtores que não exportam para os EUA tendem a realocar exportações para destinos como China, Europa e Oriente Médio — o que continua estimulando a cotação interna. E exportadores enfrentam mais custo, mas não necessariamente vendem menos.
E por fim, a inflação ao consumidor já está sinalizada. O governo americano também prevê que a tarifa encarecerá a carne para o consumidor nos EUA. No Brasil, essa demanda internacional firme acaba refletindo em alta global.
De quem é a culpa? Lula ou Bolsonaro?
Técnicamente falando, por mais que Donald Trump tenha usado essa narrativa política na carta oficial, isso não constitui motivo legal ou comercial reconhecido internacionalmente para impor uma sanção tarifária.
A carta é uma peça política, e não um documento baseado em investigações comerciais regulares (como dumping, subsídios ou barreiras técnicas).
Mas sim — do ponto de vista político e simbólico, a retórica do governo brasileiro alimentou essa resposta.
Ou seja: houve combustível interno que Trump usou para justificar essa ação.
Exemplos:
• Decisões do STF que bloquearam contas de conservadores nas redes sociais (vistas por parte da comunidade internacional como censura).
• Processos contra Bolsonaro e aliados, que geram percepção de perseguição política, especialmente quando não são acompanhados de ampla transparência ou equilíbrio institucional.
• Declarações de ministros ou autoridades brasileiras que generalizam ou criminalizam o discurso conservador.
Isso cria o “ambiente narrativo” que Trump aproveitou.
Trump não precisa de base legal para impor tarifas — só de apoio político interno nos EUA.
Como o Brasil ainda poderia reagir?
O Brasil não pode agir emocionalmente, mas sim de forma estratégica, técnica e diplomática.
1. Reação Diplomática Imediata (Curto Prazo)
• Convocar o embaixador americano no Brasil para esclarecimentos formais.
• Acionar o Itamaraty para abertura de canal direto com o Departamento de Comércio dos EUA.
• Pedir explicações técnicas e legais sobre o motivo da tarifa (ex: dumping, subsídios, desmatamento, etc.).
Objetivo: evitar escalada de tensão e buscar negociação técnica antes de confronto político.
2. Acionamento da OMC (Organização Mundial do Comércio)
• Protocolar reclamação formal na OMC, se a medida for considerada unilateral, protecionista ou sem base técnica.
• Reforçar a narrativa de que o Brasil cumpre acordos sanitários, ambientais e comerciais.
A OMC não é rápida, mas ajuda a gerar pressão institucional internacional contra abusos se esses houverem.
3. Reforçar Acordos Bilaterais e Diversificar Destinos
• Ampliar acordos com Europa, China e países árabes para compensar perdas nos EUA.
• Buscar novos mercados para os produtos afetados, oferecendo acordos rápidos de livre comércio ou redução tarifária.
• Aumentar presença comercial na África e Sudeste Asiático, regiões em crescimento e carentes de fornecedores confiáveis.
Isso reduz a dependência do mercado americano e protege o agro e a indústria nacional.
4. Apoio a Exportadores Internos
• Criar linhas de crédito emergenciais pelo BNDES e bancos públicos para exportadores afetados.
• Revisar tributos internos e burocracias, dando fôlego para empresas que perderem competitividade com a tarifa.
• Estimular valor agregado e diferenciação de produtos, tornando-os menos sensíveis a tarifas.
Isso ajuda empresas a se adaptarem e sobreviverem ao impacto no curto e médio prazo.
Contudo, quando falamos de um governo que gasta muito (gastos com servidores é de 10% do PIB), que investe pouco (apenas 3% do PIB), cobra muito em impostos (32% do PIB), e tem um endividamento muito elevado (déficit fiscal em 8% do PIB e a dívida pública bruta representa 80% do PIB), fica dificil acreditar que o atual governo brasileiro reaja de forma técnica profissional e não política.
Os gastos com viagens do governo Lula são excepcionalmente altos: excederam os R$ 4,5 bilhões entre 2023–2024, superando todo o governo anterior. Apenas no primeiro semestre de 2025, passaram dos R$ 600 milhões;
Sem contar todos os ministros que foram indicados näo por sua capacidade profissional e sim por indicação politico-partidária (o famoso “troca de favores”).
Um governo que gasta muito, que gasta mal e escolhe muito mal seus ministros.
Vivemos tempos dificéis e de muitas incertezas!! Que venha logo 2026!!
Leadro Monteiro é Administrador de empresas, com MBA em Varejo e Mestrado em Engenharia de Marketing e Negócios Digitais, Especialista em Exportação tendo passado por grandes empresas do setor. Atualmente é o Presidente do PL (Partido Liberal) em Santana de Parnaíba.
Liliane Almeida
Boa colocação sobre os impactos.
A gestão brasileira está desgovernada! Dessa maneira os principais stakeholders do país, grupos de interesse, não terão confiança nas negociações, criando regras unilaterais.
De novo, trocamos de presidentes e diretores de empresas que não dão resultados positivos, as contas no país não fecham e estamos assistindo de camarote nossa própria “falência”.
Parabéns pela matéria Leandro!



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